quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Prefecto de la Congregación para el Culto Divino pedirá al Papa que extienda la fiesta de 'Jesucristo sumo y eterno sacerdote' a toda la Iglesia


El cardenal Cañizares anunció este lunes en Valencia su intención de proponer al Papa que apruebe para toda la Iglesia la festividad de 'Jesucristo Sumo y Eterno Sacerdote', que impulsó monseñor García Lahiguera, arzobispo de Valencia de 1969 a 1978. La fiesta se celebra en España desde 1970 el jueves siguiente a Pentecostés.

En el marco de los “Diálogos de Teología”, organizados por la facultad de Teología san Vicente Ferrer y la Biblioteca Sacerdotal Almudí, Cañizares animó a los sacerdotes a “identificarse plenamente con Cristo”, ante “estos tiempos nada fáciles” para ellos.

Recordando las enseñanzas de monseñor García Lahiguera, actualmente en proceso de canonización, invitó a los sacerdotes a “gastarse y desgastarse por los demás como hizo Cristo, poniendo siempre nuestra mirada en Él”.

Recalcó que “no es que ejerzamos como sacerdotes, sino que somos sacerdotes, 24 horas al día y 365 días al año”, ya que este ministerio “compromete a toda la persona, no es un añadido, sino que nos exige ser lo que somos: sacerdotes”.

El cardenal valenciano recordó que monseñor García Lahiguera fue quien le ordenó sacerdote en 1970. Además, desveló que eligió su lema episcopal, “Hágase tu voluntad”, a partir de unas palabras de la homilía del prelado en la ceremonia de ordenación.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Grupo de anglicanos australianos anuncia sua adesão ao catolicismo



Primeiro caso depois da publicação da “Anglicanorum coetibus”

Por Carmen Elena Villa

SYDNEY, quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- A comunidade de anglicanos Foward in Faith, que tem sua sede principal na Austrália, poderia ser o primeiro caso de adesão coletiva à plena comunhão com a Igreja Católica depois da publicação da constituição Anglicanorum Coetibus, no último dia 4 de novembro.

Assim deu a conhecer o bispo anglicano David Robarts OAM, em declarações ao jornal australiano The Daily Telegraph, publicadas na terça-feira.

“Amo minha herança anglicana, mas não a perderei ao dar este passo”, assegurou o bispo.

Respeitar a tradição

A comunidade Foward in Faith, presente também na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, buscou permanecer fiel à tradição anglicana e rejeitou algumas modificações, entre elas o exercício do ministério sacerdotal e episcopal por parte das mulheres e a aprovação de alguns sacerdotes, bispos e líderes anglicanos abertamente homossexuais.

E, neste caminho – afirma o bispo –, “procuramos, durante 25 anos, ter algum tipo de supervisão episcopal, mas não conseguimos (...). Já não somos realmente queridos, nossa consciência não foi respeitada”.

Por isso, Robarts afirmou que ele e seus fiéis “vamos seguir este caminho, porque as portas nos foram fechadas na igreja anglicana da Austrália durante um longo tempo”.

E foi assim como, durante uma reunião realizada no último final de semana, cerca de 200 membros votaram unanimemente por voltar à plena e visível comunhão com a Igreja Católica.

Voltar a Roma

Com a publicação da Anglicanorum Coetibus, o Papa Bento XVI introduziu uma nova estrutura canônica que permite aos fiéis ex-anglicanos que entrem em plena comunhão com a Igreja Católica, conservando ao mesmo tempo elementos do patrimônio espiritual e litúrgico anglicano.

A figura dos ordinariatos pessoais, figura canônica de governo não restrita a um território, recorda a figura da prelazia pessoal (a única que existe é o Opus Dei), ou os vicariatos castrenses (diocese sem território na qual um bispo representa a autoridade eclesiástica para os militares ou forças da ordem católicas e suas famílias, independentemente de onde se encontrem).

Segundo o bispo Robarts, os membros desta comunidade, com a supervisão de Dom Peter Elliot, bispo auxiliar de Melbourne, e com a direção da Santa Sé, já começaram com os grupos de trabalho para estabelecer o primeiro ordinariato anglicano que poderia servir de protótipo para os que surgirão posteriormente em outros lugares do mundo.

O bispo David Robarts esclareceu, na entrevista com o The Daily Telegraph, que o passo que a comunidade Foward in Faith pretende dar não é como “quem troca de móveis”.

“Simplesmente estamos dizendo que fomos fiéis ao que os anglicanos acreditaram sempre e que não queremos mudar nada disso, mas nos marginalizaram devido àqueles que querem introduzir algumas ‘inovações’.”

“Precisamos ter bispos que acreditem naquilo que nós acreditamos”, concluiu Robarts.

Fonte: Zenit

FESTA DA CÁTEDRA DE SÃO PEDRO



Ubi Petrus, ibi Ecclesia


Mons. Guido Marini: Uma Conferência para o Ano Sacerdotal


INTRODUÇÃO AO ESPÍRITO DA LITURGIA
por Mons. Guido Marini
Mestre de Cerimônias das Celebrações Litúrgicas do Papa



Proponho focar em alguns aspectos ligados ao espírito da liturgia e refletir sobre eles convosco; na verdade, pretendo abordar um aspecto que vai exigir bastante de mim. Não apenas porque é uma tarefa exigente e complexa falar sobre o espírito da liturgia, mas também porque muitas obras importantes sobre este assunto já foram escritas por autores de alto calibre inquestionável em teologia e liturgia. Penso em duas pessoas em particular dentre muitos: Romano Guardini e o Cardeal Joseph Ratzinger.

Por outro lado, atualmente é mais do que necessário falar sobre o espírito da liturgia, especialmente para nós membros do sacerdócio sagrado. Mais ainda, há uma necessidade urgente de reafirmar o “autêntico” espírito da liturgia, tal como está presente na tradição ininterrupta da Igreja e atestado, em continuidade com o passado, nos ensinamentos mais recentes do Magistério: desde o Concílio Vaticano II até o presente pontificado. Uso a propósito a palavra “continuidade”, uma palavra muito querida pelo nosso atual Santo Padre. Ele tem feito desta palavra o único critério fidedigno pelo qual alguém pode interpretar corretamente a vida da Igreja, e mais especificamente, os documentos conciliares, incluindo todas as reformas propostas contidas ali. E como poderia ser diferente? Poderia alguém falar de uma Igreja do passado e de uma Igreja do futuro como se alguma ruptura histórica no corpo da Igreja tivesse ocorrido? Poderia alguém dizer que a Esposa de Cristo viveu sem a assistência do Espírito Santo em algum período particular do passado, de maneira que sua memória devesse ser apagada, esquecida propositalmente?

Mesmo assim parece às vezes que alguns indivíduos são verdadeiramente partidários de certa forma de pensar que pode se definir justa e propriamente como uma ideologia, ou melhor, uma noção preconcebida aplicada à história da Igreja que não tem nada a ver com a verdadeira fé.

Um exemplo do fruto produzido por essa ideologia enganadora é a distinção recorrente entre a Igreja pré-conciliar e a pós-conciliar. Tal maneira de falar pode ser legítima, mas apenas na condição de que não se entenda com isso duas Igrejas: uma pré-conciliar, que não tem mais nada a dizer ou a dar porque está ultrapassada, e uma segunda, a Igreja pós-conciliar, uma nova realidade nascida do Concílio e, por seu presumido espírito, sem continuidade com o seu passado. Esta maneira de falar e ainda mais, de pensar, não deve ser a nossa. Além de estar incorreta, já está superada e é antiquada, talvez sendo compreensível de um ponto de vista histórico, mas conectada a um período da vida da Igreja agora já concluído.

O que discutimos até agora com respeito a “continuidade” tem alguma coisa a ver com o assunto que nos foi pedido tratar nesta palestra? Sim, completamente. O autêntico espírito da liturgia não habita onde não é abordado com serenidade, deixando de lado todas as polêmicas com respeito ao passado recente ou remoto. A liturgia não pode e não deve ser uma ocasião de conflito entre aqueles que acham bom só o que veio antes de nós e aqueles que, pelo contrário, quase sempre acham ruim o que veio antes. A única atitude que nos permite ater-nos ao autêntico espírito da liturgia, com alegria e apreciação espiritual verdadeira, é considerar a liturgia do presente e do passado da Igreja como o mesmo patrimônio em contínuo desenvolvimento. Em consequência, trata-se de um espírito que temos que receber da Igreja e que não é fruto de nossa própria fabricação. Um espírito, posso acrescentar, que leva ao que é essencial na liturgia, ou, mais precisamente, à oração inspirada e guiada pelo Espírito Santo, em quem Cristo continua a se tornar presente para nós hoje, a emergir em nossas vidas. Na verdade, o espírito da liturgia é a liturgia do Espírito Santo.

Não tenho aqui a pretensão de abordar com profundidade o assunto proposto, nem de tratar todos os diferentes aspectos necessários para um entendimento panorâmico e completo da questão. Limitar-me-ei a discutir apenas uns poucos elementos essenciais à liturgia, especificamente com referência à celebração da Eucaristia, tal como a Igreja os propõe, e da forma como tenho aprendido a aprofundar meu conhecimento a respeito deles nestes dois últimos anos a serviço de nosso Santo Padre, Bento XVI. Ele é um autêntico mestre do espírito da liturgia, seja pelos seus ensinamentos, seja pelo exemplo que dá na celebração dos ritos sagrados.

Se, durante o curso destas reflexões sobre a essência da liturgia, eu apontar certos comportamentos que não considero em completa harmonia com o autêntico espírito da liturgia, farei isso apenas como uma pequena contribuição para fazer este espírito aparecer sempre mais em sua beleza e verdade.


1. A Sagrada Liturgia, um grande dom de Deus para a Igreja.


Estamos todos bem cientes de como o Concílio Vaticano II dedicou inteiramente seu primeiro documento à liturgia. Trata-se da Sacrosanctum Concilium, também chamada de Constituição sobre a Sagrada Liturgia.

Quero sublinhar o termo “sagrado” em sua aplicação à liturgia, devido a sua importância. Na verdade, os Padres conciliares pretenderam desta forma reforçar o caráter sagrado da liturgia.

O que, então, queremos dizer por sagrada liturgia? Os Orientais falariam, neste caso, da dimensão divina na Liturgia, ou, para ser mais preciso, daquela dimensão que não é deixada ao arbítrio do homem, porque é um dom que vem do alto. Refere-se, em outras palavras, ao mistério da salvação em Cristo, confiado à Igreja de maneira a torná-lo disponível em cada momento e em cada lugar por meio da natureza objetiva dos ritos litúrgicos e sacramentais. Esta é uma realidade que nos ultrapassa, que deve ser recebida como um dom, e que deve poder nos transformar. O Concílio Vaticano II afirma: “...cada celebração litúrgica, porque é uma ação de Cristo sacerdote e de Seu Corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada que ultrapassa todas as outras...” (Sacrosanctum Concilium, n.7).

Desta perspectiva não é difícil se dar conta de quão distantes algumas formas de conduta estão do autêntico espírito da liturgia. De fato, alguns indivíduos têm conseguido subverter a liturgia da Igreja de várias maneiras sob o pretexto de uma má entendida criatividade. Isso tem sido feito em nome do princípio de adaptar-se à situação local e às necessidades da comunidade, apropriando-se do direito de remover, adicionar ou modificar o rito litúrgico com fins subjetivos e emocionais. Nós sacerdotes somos grandemente responsáveis por isso.

Por esta razão, já em 2001, o então Cardeal Ratzinger afirmava: “Há necessidade, ao menos , de uma nova conscientização litúrgica que possa por um fim à tendência de tratar a liturgia como se fosse um objeto aberto à manipulação. Chegamos a um ponto onde equipes litúrgicas montam a liturgia do Domingo por sua própria conta. O resultado é certamente o produto imaginativo de uma equipe de indivíduos capazes e habilidosos. Mas desta forma se reduz o espaço onde se pode encontrar o “totalmente outro”, no qual aquele que é santo se oferece a Si mesmo como dom; aquilo com que me encontro é apenas a habilidade de um grupo de pessoas. É aí que nos damos conta de que estamos procurando por algo mais. O que temos é muito pequeno e, ao mesmo tempo, diferente. O mais importante hoje é adquirir um novo respeito pela liturgia, e estar consciente de que ela não está aberta à manipulação. Aprender novamente a reconhecer em sua natureza uma criação viva que cresce e que nos foi dada como dom, através do qual participamos da liturgia celeste. Renunciar a procurar nela a nossa própria auto-realização para que possamos vê-la como um presente. Isto, creio eu, é de primária importância: vencer a tentação de um comportamento despótico, que concebe a liturgia como um objeto, propriedade do homem, e despertar de novo o sentido interior do sagrado.” (do livro “God and the World”).

Afirmar, desta forma, que a liturgia é sagrada pressupõe o fato de a liturgia não estar sujeita a modificações esporádicas e invenções arbitrárias de um indivíduo ou de um grupo. A liturgia não é um círculo fechado no qual decidimos nos encontrar, talvez para encorajarmos uns aos outros, para sentir que somos protagonistas de alguma festa. A liturgia é a convocação de Deus para que o seu povo esteja em Sua presença; é o advento de Deus entre nós; é Deus que nos encontra neste mundo.

Certas adaptações a situações locais particulares são previstas e devidas. O próprio Missal indica onde adaptações podem ser feitas em algumas de suas seções, ainda que somente nessas e não arbitrariamente em outras. A razão para isto é importante e é bom reafirmá-la: a liturgia é um dom que nos precede, um tesouro precioso que nos foi entregue pela antiga oração da Igreja, o lugar no qual a fé encontrou no tempo sua forma e expressão orante. Ela não está à disposição de nossa subjetividade. Está indisponível à nossa subjetividade para estar integralmente à disposição de todos, ontem, assim como hoje e também amanhã. “Atualmente também,” escreveu o Papa João Paulo II em sua carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, “deveria ser redescoberta e valorizada a obediência às normas litúrgicas como reflexo e testemunho da Igreja, una e universal, que se torna presente em cada celebração da Eucaristia.” (n.52)

Na brilhante Encíclica Mediator Dei, que é tão frequentemente citada na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, o Papa Pio XII define a liturgia como “...o culto público... o culto integral do corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, da cabeça e de seus membros.” (n. 20) Como para dizer, entre outras coisas, que na liturgia, a Igreja oficialmente se identifica no mistério de sua união com Cristo como esposa, e onde ela oficialmente revela a si mesma. Com que insana inconsequência podemos reclamar para nós mesmos o direito de mudar de maneira subjetiva os santos sinais que o tempo depurou, através dos quais a Igreja fala de si mesma, de sua identidade e de sua fé?

O povo de Deus tem um direito que não pode ser ignorado nunca, em virtude do qual a todos se deve permitir aproximarem-se do que não é meramente o pobre fruto do esforço humano, mas a obra de Deus, e precisamente porque é a obra de Deus, é uma fonte de salvação e de vida nova.

Quero prolongar minha reflexão um pouco mais sobre este ponto, o qual, posso testemunhar, é muito caro ao Santo Padre, partilhando convosco uma passagem da Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, de Sua Santidade o Papa Bento XVI, escrita após o Sínodo sobre a Sagrada Eucaristia. “Ao ressaltar a importância da arte da celebração,” o Santo Padre escreve, “põe-se em evidência o valor das normas litúrgicas... A celebração eucarística é frutuosa quando os sacerdotes e os responsáveis da pastoral litúrgica se esforçam por dar a conhecer os livros litúrgicos em vigor e as respectivas normas... Talvez se dê por adquirido, nas comunidades eclesiais, o seu conhecimento e devido apreço, mas freqüentemente não é assim; na realidade, trata-se de textos onde estão contidas riquezas que guardam e exprimem a fé e o caminho do povo de Deus ao longo dos dois milênios da sua história.” (n.40)


2. A orientação da oração litúrgica.


No meio de tantas mudanças que caracterizaram, durante o curso do tempo, a arquitetura das igrejas e os lugares onde a liturgia acontece, uma convicção sempre permaneceu clara dentro da comunidade cristã, quase até o presente dia. Refiro-me à oração voltada para o oriente, uma tradição que remonta às origens do Cristianismo.

O que se entende por “oração voltada para o oriente”? Refere-se à orientação do coração orante em direção a Cristo, de quem a salvação vem, e para quem se dirige tanto no começo como no fim da história. O sol nasce no leste, e o sol é um símbolo de Cristo, a luz que nasce no Oriente. A passagem messiânica do cântico Benedictus vem prontamente à mente: “Pela bondade e compaixão de nosso Deus, o Sol nascente nos veio visitar”.

Estudos recentes e muito confiáveis provaram efetivamente que, em cada época de seu passado, a comunidade cristã soube encontrar a forma de expressar nos sinais litúrgicos, externos e visíveis, esta orientação fundamental para a vida da fé. É por isso que encontramos igrejas construídas de tal maneira que a abside é voltada para o oriente. Onde tal orientação do espaço sagrado não era possível, a Igreja recorria ao uso do Crucifixo colocado sobre o altar, no qual todos podiam focar a atenção. Com o mesmo propósito muitas absides eram decoradas com representações resplandecentes do Senhor. Todos eram convidados a contemplar essas imagens durante a celebração da liturgia eucarística.

Sem precisar recorrer a uma análise histórica detalhada de desenvolvimento da arte cristã, gostaríamos de reafirmar que a oração voltada para o oriente, mais especificamente, voltada para o Senhor, é uma expressão característica do autêntico espírito da liturgia. É neste sentido que somos convidados a voltar nossos corações para o Senhor durante a celebração da liturgia eucarística, como o diálogo introdutório do Prefácio bem nos recorda. Sursum corda “Corações ao alto”, exorta o sacerdote, e todos respondem: Habemus ad Dominum “O nosso coração está em Deus.” Ora, se tal orientação deve ser sempre adotada interiormente pela comunidade cristã inteira quando reunida em oração, deveria ser possível encontrar esta orientação expressa externamente também através de sinais. O sinal externo, além disso, não poderá ser verdadeiro, a não ser que através dele a atitude espiritual correta se torne visível.

Esta é a razão para a proposta feita pelo então Cardeal Ratzinger, e reafirmada agora durante o curso de seu pontificado, de colocar o Crucifixo no centro do altar, de tal modo que todos, durante a celebração da liturgia, possam concretamente se voltar e olhar para o Senhor, e assim orientar também suas orações e corações. Escutemos diretamente as palavras de Sua Santidade, Bento XVI, que no prefácio do primeiro volume de suas “Obras Completas”, dedicado à liturgia, escreve o seguinte: “A idéia de que o sacerdote e o povo devem ficar de frente um para o outro durante a oração nasceu apenas no cristianismo moderno, e é completamente alheia à Igreja antiga. O sacerdote e o povo certamente não rezam um para o outro, mas para o único Senhor. Logo, eles olham para a mesma direção durante a oração: seja para o oriente como um símbolo cósmico do Senhor que vem, ou, onde isto não é possível, para a imagem de Cristo na abside, para um crucifixo, ou simplesmente para os céus, como Nosso Senhor mesmo fez em sua oração sacerdotal na noite anterior à Sua Paixão (Jo 17,1). Vemos que a proposta feita por mim no final do capítulo que trata desta questão no meu livro “O Espírito da Liturgia” está felizmente se tornando mais e mais comum: em vez de realizar transformações mais profundas, simplesmente colocar o crucifixo no centro do altar, ao qual tanto o sacerdote quanto o povo possam se voltar e ser levados desta forma em direção ao Senhor, a quem todos se dirigem juntos na oração.”

Que não se diga, portanto, que a imagem de nosso Senhor crucificado obstrui a visão que os fiéis têm do sacerdote, porque eles não estão ali para olhar para o celebrante naquele ponto da liturgia! Eles estão ali para voltar seus olhares para o Senhor! Da mesma maneira, o presidente da celebração também deve ser capaz de se voltar na direção do Senhor. O crucifixo não obstrui nossa visão; em vez disso ele expande nosso horizonte para ver o mundo de Deus; o crucifixo nos leva a meditar no mistério; nos introduz no céu de onde vem a única luz capaz de dar sentido à vida nesta terra. Nossa visão, na verdade, estaria cega e obstruída se nossos olhos permanecessem fixos naquelas coisas que mostram apenas o homem e suas obras.

Desta forma pode-se entender porque hoje ainda é possível celebrar a Santa Missa nos altares antigos, quando as características arquitetônicas e artísticas de nossas igrejas assim o permitirem. Também nisto, o Santo Padre nos dá um exemplo quando celebra a sagrada eucaristia no antigo altar na Capela Sistina na festa do Batismo do Senhor.

Em nosso tempo, a expressão “celebração voltada para o povo” entrou no vocabulário comum. Se a intenção ao usar esta expressão é descrever a localização do sacerdote que, nos dias de hoje frequentemente se encontra voltado para a assembléia devido à posição do altar, tal expressão é aceitável. Todavia, tal expressão seria categoricamente inaceitável a partir do momento em que viesse a expressar uma proposição teológica. Teologicamente falando, a Santa Missa, na realidade, é sempre dirigida a Deus por Cristo Senhor, e seria um grave erro imaginar que a orientação principal da ação sacrifical é a comunidade. Logo, tal orientação, de se voltar em direção ao Senhor, tem que animar a participação interior de cada indivíduo durante a liturgia. É igualmente importante que esta orientação seja bem visível como sinal litúrgico também.


3. Adoração e união com Deus.


A adoração é o reconhecimento cheio de admiração, e poderíamos mesmo dizer com êxtase (porque nos faz sair de nós mesmos e de nosso mundo pequeno), o reconhecimento do poder infinito de Deus, de sua majestade incompreensível e de Seu amor sem limites que nos é oferecido com absoluta gratuidade, de Seu Senhorio onipotente e providente. Consequentemente, a adoração leva à reunificação do homem e da criação com Deus, ao abandono do estado de separação, de aparente autonomia, à perda de si mesmo, que é, além do mais, a única maneira de ganhar a si mesmo.

Diante da inefável beleza da caridade de Deus, que toma forma no mistério da Encarnação do Verbo, que por nós morreu e ressuscitou, e que encontra sua manifestação sacramental na liturgia, não nos resta mais nada a não ser estar em adoração. O Papa João Paulo II afirma na carta Ecclesia de Eucharistia: “Há, no evento pascal e na Eucaristia que o atualiza ao longo dos séculos, uma capacidade realmente imensa, na qual está contida a história inteira, enquanto destinatária da graça da redenção. Este enlevo deve invadir sempre a assembléia eclesial reunida para a celebração eucarística.” (n.5)

“Meu Senhor e meu Deus,” fomos ensinados a dizer desde a infância no momento da consagração. Desta maneira, tomando emprestadas as palavras do apóstolo São Tomé, somos levados a adorar o Senhor, feito presente e vivo nas espécies da sagrada eucaristia, unindo-nos a Ele e reconhecendo-O como nosso tudo. Dali torna-se possível prosseguir nosso caminho diário, tendo encontrado a ordem correta da vida, o critério fundamental pelo qual viver e morrer.

Aqui está a razão pela qual tudo no ato litúrgico, através da nobreza, da beleza, e da harmonia dos sinais exteriores, tem que conduzir à adoração, à união com Deus: isto inclui a música, o canto, os períodos de silêncio, a maneira de proclamar a Palavra do Senhor, a maneira de rezar, os gestos empregados, as vestes litúrgicas os vasos sagrados e outros acessórios, assim como o edifício sagrado em sua totalidade. É sob esta perspectiva que a decisão de Sua Santidade, o Papa Bento XVI, deve ser entendida, que, começando a partir da festa de Corpus Christi do ano passado, começou a distribuir a Sagrada Comunhão aos fiéis ajoelhados e diretamente na língua. Pelo exemplo dessa conduta, o Santo Padre nos convida a tornar visível a atitude própria de adoração diante da grandeza do mistério da presença eucarística de Nosso Senhor. Uma atitude de adoração que tem que ser promovida tanto mais ao se aproximar da santíssima Eucaristia das outras formas permitidas nos dias de hoje.

Gostaria de citar mais uma vez outra passagem da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis: “Quando a reforma dava os primeiros passos, aconteceu às vezes não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento; uma objeção então em voga, por exemplo, partia da idéia que o pão eucarístico nos fora dado não para ser contemplado, mas comido. Ora, tal contraposição, vista à luz da experiência de oração da Igreja, aparece realmente destituída de qualquer fundamento; já Santo Agostinho dissera: ‘Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit; [...] peccemus non adorando – ninguém come essa carne, sem antes a adorar; [...] pecaríamos se não a adorássemos’ De fato, na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-se conosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior ato de adoração da Igreja: receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração daquele que comungamos. Precisamente assim, e apenas assim, é que nos tornamos um só com ele e, de algum modo, saboreamos antecipadamente a beleza da liturgia celeste.” (n. 66)

Creio que, entre outras, a seguinte passagem do texto que acabei de ler não deve passar desapercebida: “[A celebração eucarística] é, em si mesma, o maior ato de adoração da Igreja.” Graças à sagrada eucaristia, Sua Santidade, Bento XVI, nos diz mais uma vez: “A imagem do matrimônio entre Deus e Israel torna-se realidade de um modo anteriormente inconcebível: o que era um estar na presença de Deus torna-se agora, por meio da participação na doação de Jesus, comunhão em seu corpo e sangue, torna-se união.” (Deus Caritas Est, n.13) Por esta razão, tudo na liturgia, e mais especificamente na liturgia eucarística, tem que levar à adoração; tudo no desenrolar do rito tem que ajudar a se entrar na adoração da Igreja ao seu Senhor.

Considerar a liturgia como local de adoração, para unir-se com Deus, não significa perder de vista a dimensão comunitária da celebração litúrgica, muito menos esquecer o imperativo da caridade em relação ao próximo. Pelo contrário, somente através de uma renovação da adoração a Deus em Cristo, que toma forma no ato litúrgico, nascerá uma autêntica comunhão fraterna e uma nova história de caridade e amor, sustentada por aquela capacidade de maravilhar-se e de agir heroicamente, que somente a graça de Deus pode dar aos nossos pobres corações. As vidas dos santos nos recordam e nos ensinam isso. “A união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele Se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-Lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou que se tornarão Seus. A comunhão tira-me para fora de mim mesmo, projetando-me para Ele e, desse modo, também para a união com todos os cristãos.” (Deus Caritas Est, n.14)


4. A Participação Ativa.


Foram realmente os santos que celebraram e viveram o ato litúrgico participando ativamente. A santidade, como resultado de suas vidas, é o testemunho mais bonito de uma participação verdadeiramente ativa na liturgia da Igreja.

Justamente, então, e por providência divina, o Concílio Vaticano II insistiu tanto na necessidade de promover uma autêntica participação da parte dos fiéis durante a celebração dos sagrados mistérios, ao mesmo tempo em que lembrava à Igreja do chamado universal à santidade. Essa instrução exigente do concílio tem sido confirmada e proposta mais e mais por tantos documentos sucessivos do magistério até o presente dia.

Apesar disso, nem sempre tem havido um entendimento correto do conceito de “participação ativa”, de acordo com aquilo que a Igreja ensina e exorta os fiéis a viver. Na verdade, há participação ativa quando, durante o curso da celebração litúrgica, cada um cumpre seu próprio papel; também há participação ativa quando se tem uma melhor compreensão da palavra de Deus quando a mesma é ouvida ou das orações quando as mesmas são ditas; também há participação ativa quando se une a própria voz às demais vozes no canto... Tudo isso, entretanto, não significaria uma participação verdadeiramente ativa se não levasse à adoração do mistério de salvação em Cristo Jesus, que por nossa causa morreu e ressuscitou. Isto porque só aquele que adora o mistério, recebendo-o de bom grado em sua vida, demonstra ter compreendido o que está sendo celebrado, e então está verdadeiramente participando da graça do ato litúrgico.

Como confirmação e respaldo para o que acaba de ser dito, ouçamos novamente as palavras de uma passagem do então Cardeal Ratzinger, do seu estudo fundamental “Introdução ao Espírito da Liturgia”: “Mas em que consiste esta participação ativa? O que se faz aí? Infelizmente, o sentido dessa palavra facilmente leva a equívocos, pensando-se que se trata de um ato geral e apenas exterior, como se todos tivessem de – quanto mais possível tanto melhor – ver-se em ação. Contudo, a palavra ‘participação’ (ou ‘ter participação’) remete para uma participação principal, na qual todos devem participar... Nas fontes, entende-se sob actio da Liturgia a oração eucarística. A verdadeira ação litúrgica, o verdadeiro ato litúrgico, é a oratio... Essa oratio – a oração eucarística, o ‘Cânone’ – é certamente mais do que uma alocução, ela é actio no sentido mais elevado do termo.” (edição portuguesa, pp.127-8) Cristo é feito presente em toda a sua obra salvífica, e por esta razão a actio humana se torna secundária e cede espaço à actio divina, à obra de Deus.

Logo, a verdadeira ação que é executada na liturgia é a ação do próprio Deus, sua obra de salvação em Cristo, da qual participamos. Esta é, entre outras coisas, a verdadeira novidade da liturgia cristã em relação a todos os outros atos de culto: o próprio Deus age e realiza o que é essencial, enquanto o homem é chamado a abrir-se à atividade de Deus, a deixar-se transformar. Consequentemente, o aspecto essencial da participação ativa é superar a diferença entre a ação de Deus e nossa própria ação, de forma a que possamos ser um com Cristo. Por isso eu poderia enfatizar o que foi dito até agora: não é possível participar sem adoração. Escutemos outra passagem da Sacrosanctum Concilium: “É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos.” (n. 48)

Comparado com isso, tudo o mais é secundário. Estou me referindo em particular às ações externas, lembrando que as mesmas são importantes e necessárias, e previstas sobretudo durante a Liturgia da Palavra. Menciono as ações externas porque, caso se tornem a preocupação essencial, a liturgia será reduzida a um ato genérico, e neste caso o autêntico espírito da liturgia não terá sido compreendido. Segue-se que uma autêntica educação para a liturgia não pode consistir em simplesmente aprender e praticar ações exteriores, mas em uma introdução à ação essencial, à obra de Deus, ao mistério pascal de Cristo, que precisamos permitir que nos encontre, nos envolva e nos transforme. Que a mera execução de gestos externos não seja confundida com o correto envolvimento de nossos corpos no ato litúrgico. Sem excluir nada do significado e importância da ação externa que acompanha o ato interno, a Liturgia demanda muito mais do corpo humano. Requer, de fato, seu esforço total e renovado nas ações diárias da vida. Isto é o que o Santo Padre Bento XVI chama de “coerência eucarística”. Propriamente falando, o exercício oportuno e fiel de tal coerência é a expressão mais autêntica da participação, inclusive corporal, no ato litúrgico, a ação salvífica de Cristo.

Gostaria de discutir mais este ponto. Estamos realmente certos de que a promoção de uma participação ativa consiste em fazer com que tudo seja imediatamente compreensível até os mínimos detalhes? Será que o ingresso no mistério de Deus não pode ser facilitado e, algumas vezes, até melhor acompanhado por aquilo que toca principalmente as razões do coração? Não acontece, em alguns casos, que uma quantidade desproporcional de espaço é dada a um discurso vazio e trivial, esquecendo-se que pertencem à liturgia diálogo e silêncio, canto e música, imagens, símbolos e gestos? Não pertenceriam, talvez, a essa diversidade de linguagem que nos conduz ao centro do mistério e, portanto, à verdadeira participação, também a língua latina, o canto Gregoriano e a polifonia sacra?


5. A música sacra ou litúrgica.


Não há dúvidas de que uma discussão que se proponha a ser uma introdução autêntica ao espírito da liturgia não pode silenciar quanto ao assunto música sacra ou litúrgica.

Limitar-me-ei a uma breve reflexão para orientar a discussão. Poderia-se pensar por que a Igreja, através de seus documentos, mais ou menos recentes, insiste em indicar um certo tipo de música e canto como particularmente consonantes com a celebração litúrgica. Já no Concílio de Trento a Igreja interveio no conflito cultural que se desenvolvia na época, restabelecendo a norma pela qual a conformidade da música com o texto sagrado era de suma importância, limitando o uso de instrumentos e indicando uma clara distinção entre música profana e sacra. A música sacra, inclusive, não pode mais ser entendida como expressão de pura subjetividade. Ela está ancorada nos textos bíblicos ou da Tradição que devem ser cantados durante o curso da celebração. Mais recentemente, o Papa São Pio X interveio de maneira análoga, procurando remover o canto operístico da liturgia e selecionando o canto Gregoriano e a polifonia do tempo da contra-reforma Católica como o padrão para a música litúrgica, distinguindo-a assim da música religiosa em geral. O Concílio Vaticano II não fez nada além de reafirmar o mesmo padrão, assim como os documentos magisteriais mais recentes.

Por que a Igreja insiste em propor certas formas como características da música sagrada e litúrgica, fazendo-as distintas de todas as outras formas de música? Por que, também, o canto Gregoriano e a polifonia sagrada clássica se tornaram as formas exemplares, à luz das quais a música litúrgica e mesmo a popular deveriam continuar a ser produzidas hoje?

A resposta a estas questões reside precisamente naquilo que procuramos discorrer a respeito do espírito da liturgia. São propriamente aquelas formas de música – em sua santidade, bondade e universalidade – que traduzem em notas, melodias e canto o autêntico espírito litúrgico: levando à adoração do mistério celebrado, favorecendo uma participação autêntica e integral, ajudando o ouvinte a perceber o sagrado e, logo, a primazia essencial de Deus agindo em Cristo, e finalmente permitindo um desenvolvimento musical que esteja ancorado na vida da Igreja e na contemplação de seu mistério.

Permitam-me uma última citação de Joseph Ratzinger: “Gandhi destaca três espaços vitais no cosmos e mostra como cada um deles comunica seu próprio modo de ser. Os peixes vivem no mar e são silenciosos. Os animais terrestres gritam, mas os pássaros, cujo espaço vital é o céu, cantam. O silêncio é próprio do mar, gritar é próprio da terra, e cantar é próprio do céu. O homem, entretanto, participa dos três: ele leva em si a profundidade do mar, o peso da terra e a altura dos céus; é por isto que todos os três modos de ser pertencem a ele: silêncio, grito e canto. Hoje... vemos que, despojado da transcendência, tudo o que resta ao homem é gritar, porque ele deseja ser somente terra e busca transformar em terra mesmo os céus e a profundeza do mar. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos, lhe restitui sua totalidade. Ela o ensina de novo como ser silencioso e como cantar, abrindo para ele as profundezas do mar e ensinando-o novamente a voar, a natureza de um anjo; elevando seu coração, faz ressoar nele mais uma vez aquela canção que tinha de certo modo adormecido. De fato, podemos mesmo dizer que a verdadeira liturgia é reconhecível especialmente quando nos liberta da forma comum de viver, e nos restaura as profundezas e as alturas, silêncio e canção. A verdadeira liturgia é reconhecível pelo fato de ser cósmica, e não feita sob medida para um grupo. Ela canta com os anjos. Ela permanece em silêncio com as profundezas do universo em espera. E desta forma ela redime o mundo.” (Cantate al Signore un canto nuovo, pp. 153-4)

Concluo. Já há alguns anos, várias vozes têm sido ouvidas dentro da Igreja falando sobre a necessidade de uma nova renovação litúrgica. De um movimento, de alguma forma análogo àquele que formou as bases para a reforma promovida pelo Concílio Vaticano II, que seja capaz de operar uma reforma da reforma, ou melhor, um passo adiante no entendimento do autêntico espírito da liturgia e de sua celebração; seu objetivo seria levar a cabo aquela providencial reforma da liturgia que os Padres conciliares iniciaram mas que nem sempre, em sua implementação prática, encontrou um cumprimento oportuno e feliz.

Não há dúvidas de que nesta nova renovação litúrgica somos nós sacerdotes que devemos recuperar um papel decisivo. Com a ajuda de Nosso Senhor e da Bem Aventurada Virgem Maria, mão de todos os sacerdotes, possa este desenvolvimento ulterior da reforma também ser o fruto de nosso sincero amor pela liturgia, em fidelidade à Igreja e ao Santo Padre.

Mons. Guido Marini
Mestre de Cerimônias das Celebrações Litúrgicas do Papa

Tradução: Fabiano Rollim

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

BENTO XVI PRESIDE CONSISTÓRIO PARA CANONIZAÇÃO DE SEIS BEATOS



Cidade do Vaticano, 19 fev (RV) - Quatro futuros santos e santas coetâneos de três continentes – todos nascidos em meados do Séc. XIX – e dois outros que viveram entre os Sécs. XV e XVI. Concentram-se nesses dois arcos de tempo os episódios dos seis bem-aventurados objeto do Consistório ordinário público presidido na manhã desta sexta-feira no Vaticano pelo Santo Padre, que fixou para o dia 17 de outubro próximo a data das canonizações.

Repercorrer as etapas da vida de uma Santa ou de um Santo é como apresentar uma época histórica a partir do seu lado melhor, o das pessoas que serviram à Igreja servindo e beneficiando a sociedade do seu tempo.

Foi o que foi feito esta manhã, no Vaticano, quando Bento XVI abriu e presidiu – com a Hora Média da Liturgia das Horas – a celebração do Consistório para a votação sobre seis Causas de canonização.

Maria Helena Mackillop (1842-1909), q ue no dia 17 de outubro de 2010 se tornará a primeira Santa Australiana, nasceu no Séc. XIX em Melbourne.

A Austrália da época era um conjunto de colônias marcadas por uma vida pobre e primitiva. Pobre era também a família da jovem que, embora atraída pela vida religiosa, teve que colocar esse desejo de lado para poder contribuir com o sustento dos seus.

Aos 18 anos tornou-se professora numa pequena cidade do sul do país. Com o pároco, Pe. Woods, criou as primeiras duas escolas católicas para a educação gratuita, lutando contra a chaga do analfabetismo. Logo cedo encontrou um grupo de jovens prontas a tornarem professoras voluntárias, e com elas deu início ao primeiro núcleo das Irmãs de São José do Sagrado Coração de Jesus, simplesmente chamadas de Josefinas.

Todas elas aprenderam da Madre Maria Helena – como logo passou a ser chamada – a educar as crianças, como também a ajudar as suas famílias, e a ser "família" para os detentos, dos quais ninguém se ocupava.

Outro Beato a ser canonizado em outubro próximo é André Bassette (1845-1937), canadense de Montreal. Órfão aos 12 anos e depois emigrado para os EUA, aprendeu a honrar São José de modo particular.

Voltando à sua cidade, entrou como Irmão André na Congregação da Santa Cruz, assumindo a tarefa de porteiro do Colégio de Notre Dame, função que desempenhará durante 40 anos. Mas era também enfermeiro, barbeiro, horticultor e, sobretudo, um homem de Deus.

Com a sua devoção a São José obteve, por intercessão do Santo, extraordinárias curas, e a sua cela se tornou meta de um constante afluxo de pessoas de todas as condições sociais. Etiquetado como pessoa de saúde frágil, Irmão André morreu aos 91 anos, em 1937, e para o Canadá foi dia de luto nacional.

Outra futura santa é a espanhola Joana Josefa Cipitria y Barriola (1845-1912). Semianalfabeta, desde cedo manifestou duas vocações particulares: à Eucaristia e à Virgem. O fruto dessa profunda interioridade se colhe na predileção pelos pobres, com os quais dividia o alimento, roupa e boa parte de seu salário.

Nessa dinâmica de vida, a idéia da consagração religiosa amadureceu rapidamente e mais tarde, em 1869, uma intuição abriu-lhe o coração ao projeto hoje difundido em grande parte do mundo: a fundação das Irmãs Filhas de Jesus. Mudou o seu nome para Cândida Maria e o Instituto nasceu em Salamanca em 1871.

Na metade do Séc. XIX nasceu em Casoria, próximo a Nápoles – sul da Itália – Julia Salzano (1846-1929). Crescida num orfanato, tornou-se professora do 1º grau, unindo a sua capacidade pedagógica a uma intensa preparação espiritual. Ao tempo em que ensinava, organizava ateliês de costura para o adorno das igrejas pobres e tal era a sua dedicação que suscitou apreços tanto eclesiais quanto civis. A sua consagração religiosa deu-se em 1905 e pouco antes havia tomado pé a fundação das Irmãs Catequistas do Sagrado Coração de Jesus. A futura Santa era uma catequista inspirada e amorosa para com todas as categorias de pessoas, com uma grande predileção pelo culto do Sagrado Coração de Jesus.

Outra futura Santa é a italiana Camila Battista Varano (1458-1524), filha de um príncipe Julio César de Verano, senhor de Camerino. Cresceu no palácio, em meio às diversões que a nobreza lhe assegurava. E, no entanto, naquele clima de volubilidade se acendeu nela a centelha de sua profundidade espiritual. Entre os 8 e os 10 anos, conta ela mesma numa autobiografia, havia feito um voto, após ter ouvido uma pregação do franciscano Domenico de Leonessa, de derramar uma lágrima toda sexta-feira em recordação à Paixão de Cristo.

Escolheu a clausura, opção à qual o pai se opôs fortemente, mas a sua vontade foi mais forte do que tudo. Vestiu o hábito franciscano no mosteiro de Santa Clara de Urbino, tomando o nome de Irmã Battista.

Oito anos após a morte de Irmã Battista, nasceu na Polônia Estanislau Kazimierczyk (1433-1489). Seu pai era assessor municipal e a mãe era dona de casa. Estudou na paróquia administrada pelos Cônegos Regulares de Latrão. Foi o encontro que marcou a sua vida.

Em torno dos 23 anos entrou na Ordem e aprofundou com grande diligência o estudo da Bíblia. Era um homem prático, responsável, mas quando se tornou mestre de noviços, e mais tarde dos jovens religiosos, foi colocado em evidência o seu caráter por excelência: o de ser um grande mestre do espírito, muito estimado pelos confrades.

Com a palavra e a coerência da sua vida religiosa, combateu as derivas insinuadas pelos primeiros ventos do humanismo, corrente de pensamento fechado à transcendência. Morreu aos 56 anos e no dia de suas exéquias, como atestam os documentos, se realizaram muitos milagres, que se contam numerosos à distância de um ano de sua morte. (RL)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2010


A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21–22 )


Queridos irmãos e irmãs,

todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida á luz dos ensinamentos evangélicos . Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22 ).

Justiça: “dare cuique suum”

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos - , mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se “ a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal , não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram á lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição ; á lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De facto sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva ( cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre ( cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro ( cfr Ex 22,20), o escravo ( cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto – suficiência , daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

Cristo, justiça de Deus

O anuncio cristão responde positivamente á sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O facto de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico , mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo, obvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças á acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é aquela do amor ( cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.

Precisamente fortalecido por esta experiencia, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 30 de Outubro de 2009

BENEDICTUS PP. XVI


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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Importantes clarificaciones de Ecclesia Dei


La Pontificia Comisión Ecclesia Dei ha respondido recientemente a algunas cuestiones importantes relativas a la aplicación del motu proprio Summorum Pontificum. Las preguntas fueron dirigidas por el moderador de los fieles adheridos a la Forma Extraordinaria de la diócesis de Rzeszów, Polonia. Las respuestas, no obstante, son de aplicación general. Presentamos el sumario de las mismas realizado por el blog The New Liturgical Movement.

1. Si no hay otra posibilidad, debido por ejemplo a que en todas las iglesias de una diócesis las liturgias del Triduo Sacro están ya siendo celebradas en la Forma Ordianria, las liturgias del Triduo Sacro pueden ser adicionalmente celebradas en la Forma Extraordinaria en la misma iglesia en la que ya son celebradas en la Forma Ordinaria, si lo permite el ordinario local.

2. Una Misa en el Usus antiquior puede reemplazar a una Misa programada regularmente en la Forma Ordinaria. La cuestión se plantea en el contexto de que, en muchas iglesias, las Misas dominicales están programadas más o menos continuamente, dejando libres solamente espacios muy inconvenientes de media tarde, pero esto es meramente el contexto, siendo que la cuestión propuesta es general. La respuesta deja el asunto al juicio prudente del párroco, y pone énfasis en el derecho de un grupo estable a asistir a la Misa en la Forma Extraordinaria.

3. Un párroco puede programar una Misa pública en la Forma Extraordinaria por propia iniciativa (sin el pedido de un grupo de fieles) para el beneficio de los fieles, incluso de aquellos que no están familiarizados con el Usus antiquior. La respuesta de la Comisión aquí es idéntica al nº 2.

4. El calendario, las lecturas o los prefacios del Missale Romanum de 1970 no pueden sustituir a las del Missale Romanum de 1962 en las Misas en la Forma Extraordinaria.

5. Mientras que las lecturas litúrgicas (Epístola y Evangelio) tienen que ser leídas por el sacerdote (o diácono/subdiácono) como preven las rúbricas, puede ser leída después, también por un laico, una traducción al vernáculo.

Fuente: The New Liturgical Movement
Traducción: La Buhardilla de Jerónimo