terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Assunção de Nossa Senhora ao Céu é sinal de que Deus não nos abandona



O Papa Bento XVI que neste período do ano tem a sua residência em Castelgandolfo, deslocou-se na manhã deste domingo á igreja paroquial local dedicada a São Tomás de Vilanova, onde presidiu a celebração da Missa da festa da Assunção de N. Sra.

“O cristianismo dá uma esperança forte num futuro luminoso e abre o caminho para a realização deste futuro, e nós somos chamados como cristãos a construir este mundo novo.

Foi uma mensagem de esperança para todos os crentes, aquela que Bento XVI quis tirar dos significados da solenidade da Assunção de N. Sra. Uma das festas mais importantes do ano litúrgico, disse o Papa na homilia, recordando que a 1 de Novembro deste ano ocorre o 60º aniversario da definição dogmática da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, da parte do Papa Pio XII. E com este dogma – explicou Bento XVI - nós acreditamos que Maria, como Cristo seu filho, já venceu a morte e triunfa na gloria celeste na totalidade do seu ser, em corpo e alma.

O Papa quis deter-se sobre o facto de que todos nós temos bem consciência de que com a palavra céu não nos referimos a um lugar qualquer do universo, a uma estrela ou qualquer outra coisa.

Referimo-nos a algo muito maior e difícil de definir com os nossos conceitos humanos limitados.

“Com a palavra céu queremos afirmar que Deus não nos abandona tão pouco na e para além da morte, mas tem um lugar para nós e dá-nos a eternidade, que em Deus há um lugar para nós”.

Segundo Bento XVI a nossa serenidade, a nossa esperança, a nossa paz fundamentam-se precisamente nisto: em Deus, no seu pensamento e no seu amor não sobrevive apenas a sombra de nós mesmos, mas nEle e no seu amor, somos guardados e introduzidos com a nossa vida inteira, com todo o nosso ser, para a eternidade.

É o seu amor que vence a morte e nos dá a eternidade – concluiu . E é este amor que chamamos Céu.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Observância das normas litúrgicas e “ars celebrandi”


Coluna de teologia litúrgica dirigida por Mauro Gagliardi


ROMA, domingo, 11 de julho de 2010 (ZENIT.org) - Oferecemos a seguir o último artigo de nossa seção "Espírito da Liturgia", escrito por Mauro Gagliardi, sobre a importância da observância das normas litúrgicas e o "ars celebrandi".

* * *

Durante o Ano Sacerdotal, concluído há pouco, a coluna "Espírito da Liturgia" desenvolveu o tema "O sacerdote na Celebração eucarística", eleito com ocasião da coincidência, em 2009-2010, de diversos aniversários: o 150° da morte do Santo Cura d'Ars (1859), o 40º da promulgação do Missal de Paulo VI (1969) e o 440° do Missal de São Pio V (1570), que na edição aprovada pelo beato João XXIII (1962) representa a forma extraordinária do Rito Romano [1]. Daí a oportunidade de colocar em evidência a peculiar dignidade do sacerdócio ordenado, aprofundando a teologia e a espiritualidade da Santa Missa, particularmente na perspectiva do ministro que a celebra.

Neste último artigo, com o qual queremos também nos despedir de nossos leitores antes da pausa veraneia, queremos refletir com a brevidade costumeira sobre o tema do "ars celebrandi".

1. A situação no pós-Concílio

O Concílio Vaticano II ordenou uma reforma geral na sagrada liturgia [2]. Esta foi efetuada, após o encerramento do Concílio, por uma comissão chamada abreviadamente de Consilium [3]. É sabido que a reforma litúrgica foi desde o início objeto de críticas, às vezes radicais, como de exaltações, em certos casos excessivas. Não é nossa intenção nos deter neste problema. Podemos dizer em contrapartida que se está geralmente de acordo em observar um forte aumento dos abusos no campo celebrativo depois do Concílio. Também o Magistério recente tomou nota da situação e em muitos casos chamou à estrita observância das normas e das indicações litúrgicas. Por outro lado, as leis litúrgicas estabelecidas para a forma ordinária (ou de Paulo VI) - que, exceções à parte, celebra-se sempre e em todas partes na Igreja de hoje - são muito mais "abertas" em relação ao passado. Estas permitem muitas exceções e diversas aplicações, e preveem também múltiplos formulários para os diversos ritos (a pluriformidade inclusive aumenta na passagem da editio typica latina às versões nacionais). Apesar disso, um grande número de sacerdotes considera que tem de ampliar ulteriormente o espaço deixado à "criatividade", que se expressa sobretudo com a frequente mudança de palavras ou de frases inteiras em relação às fixadas nos livros litúrgicos, com a inserção de "ritos" novos e frequentemente estranhos completamente à tradição litúrgica e teológica da Igreja e inclusive com o uso de vestimentas, utensílios sagrados e adornos nem sempre adequados e, em alguns casos, caindo inclusive no ridículo. O liturgista Cesare Giraudo resumiu a situação com estas palavras:

"Se antes [da reforma litúrgica] havia fixação, esclerose de formas, inaturalidade, que faziam a liturgia de então um ‘liturgia de ferro', hoje, há naturalidade e espontaneidade, sem dúvida sinceras, mas frequentemente confusas, mal entendidas, que fazem - ou ao menos correm o risco de fazer - da liturgia uma "liturgia de borracha", incerta, escorregadiça, que às vezes se expressa em uma ostentosa liberação de toda normativa escrita. [...] Esta espontaneidade mal entendida, que se identifica de fato com a improvisação, a falta de seriedade, a superficialidade, o permissivismo, é o novo ‘critério' que fascina inumeráveis agentes pastorais, sacerdotes e leigos.

[...] Por não falar também daqueles sacerdotes que, às vezes e em alguns lugares, arrogam-se o direito de utilizar orações eucarísticas selvagens, ou de compor aqui ou ali seu texto ou partes dele" [4].

O Papa João Paulo II, na encíclica Ecclesia de Eucharistia, manifestou seu desgosto pelos abusos litúrgicos que acontecem frequentemente, particularmente na celebração da Santa Missa, já que a "Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e diminuições" [5]. Ele acrescentou:

"Temos a lamentar, infelizmente, que sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica pós-conciliar, por um ambíguo sentido de criatividade e adaptação, não faltaram abusos, que foram motivo de sofrimento para muitos. Uma certa reacção contra o «formalismo» levou alguns, especialmente em determinadas regiões, a considerarem não obrigatórias as «formas» escolhidas pela grande tradição litúrgica da Igreja e do seu magistério e a introduzirem inovações não autorizadas e muitas vezes completamente impróprias. Por isso, sinto o dever de fazer um veemente apelo para que as normas litúrgicas sejam observadas, com grande fidelidade, na celebração eucarística. Constituem uma expressão concreta da autêntica eclesialidade da Eucaristia; tal é o seu sentido mais profundo. A liturgia nunca é propriedade privada de alguém, nem do celebrante, nem da comunidade onde são celebrados os santos mistérios." [6].

2. Causas e efeitos do fenômeno

O fenômeno da "desobediência litúrgica" estendeu-se de tal forma, por número e em certos casos também por gravidade, que se formou em muitos uma mentalidade pela qual na liturgia, salvando as palavras da consagração eucarística, se poderiam dar todas as modificações consideradas "pastoralmente" oportunas pelo sacerdote ou pela comunidade. Esta situação induziu o próprio João Paulo II a pedir à Congregação para o Culto Divino que preparasse uma Instrução disciplinar sobre a Celebração da Eucaristia, publicada com o título de Redemptionis Sacramentum, a 25 de março de 2004. Na citação antes reproduzida da Ecclesia de Eucharistia, indicava-se na reação ao formalismo uma das causas da "desobediência litúrgica" de nosso tempo. A Redemptionis Sacramentum assinala outras causas, entre elas um falso conceito de liberdade [7] e a ignorância. Esta última em particular se refere não só ao conhecimento das normas, mas também a uma compreensão deficiente do valor histórico e teológico de muitos textos eucológicos e ritos: "Finalmente, os abusos se fundamentam com frequência na ignorância, já que quase sempre se rejeita aquilo que não se compreende seu sentido mais profundo e sua Antiguidade" [8].

Introduzindo o tema da fidelidade às normas em uma compreensão teológica e histórica, ademais de no contexto da eclesiologia de comunhão, a Instrução afirma: "O Mistério da Eucaristia é demasiado grande «para que alguém possa permitir tratá-lo ao seu arbítrio pessoal, pois não respeitaria nem seu caráter sagrado, nem sua dimensão universal» [...] Os atos arbitrários não beneficiam a verdadeira renovação e sim lesionam o verdadeiro direito dos fiéis à ação litúrgica, à expressão da vida da Igreja, de acordo com sua tradição e disciplina. Além disso, introduzem na mesma celebração da Eucaristia elementos de discórdia e de deformação, quando ela tem, por sua própria natureza e de forma eminente, de significar e de realizar admiravelmente a Comunhão com a vida divina e a unidade do povo de Deus. Estes atos arbitrários causam incerteza na doutrina, dúvida e escândalo para o povo de Deus e, quase inevitavelmente, uma violenta repugnância que confunde e aflige com força a muitos fiéis em nossos tempos, em que frequentemente a vida cristã sofre o ambiente, muito difícil, da «secularização».

Por outra parte, todos os fiéis cristãos gozam do direito de celebrar uma liturgia verdadeira, especialmente a celebração da santa Missa, que seja tal como a Igreja tem querido e estabelecido, como está prescrito nos livros litúrgicos e nas outras leis e normas. Além disso, o povo católico tem direito a que se celebre por ele, de forma íntegra, o santo Sacrifício da Missa, conforme toda a essência do Magistério da Igreja. Finalmente, a comunidade católica tem direito a que de tal modo se realize para ela a celebração da Santíssima Eucaristia, que apareça verdadeiramente como sacramento de unidade, excluindo absolutamente todos os defeitos e gestos que possam manifestar divisões e facções na Igreja." [9]

Particularmente significativo neste texto é o chamado ao direito dos fiéis de terem a liturgia celebrada segundo as normas universais da Igreja, além de sublinhar o fato de que as transformações e modificações da liturgia - ainda que se façam por motivos "pastorais" - não têm na realidade um efeito positivo neste campo; ao contrário, confundem, turbam, cansam e podem inclusive fazer os fiéis se afastarem da prática religiosa.

3. O ars celebrandi

Eis aqui os motivos pelos quais o Magistério nas últimas quatro décadas recordou várias vezes aos sacerdotes a importância do ars celebrandi, o qual - se bem não consiste apenas na perfeita execução dos ritos de acordo com os livros, mas também e sobretudo no espírito de fé e adoração com os que estes se celebram - não se pode no entanto realizar se se afasta das normas fixadas para a celebração [10]. Assim o expressa por exemplo o Santo Padre Bento XVI: "O primeiro modo de favorecer a participação do povo de Deus no rito sagrado é a condigna celebração do mesmo; a arte da celebração é a melhor condição para a participação ativa (actuosa participatio). Aquela resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente este modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa".

Recordando estes aspectos, não se deve cair no erro de esquecer os frutos positivos produzidos pelo movimento de renovação litúrgica. O problema assinalado, contudo, subsiste e é importante que a solução ao mesmo parta dos sacerdotes, os quais devem se empenhar antes de tudo em conhecer de maneira aprofundada os livros litúrgicos, e também a pôr fielmente em prática suas prescrições. Só o conhecimento das leis litúrgicas e o desejo de se ater estritamente a elas impedirá ulteriores abusos e "inovações" arbitrárias que, se no momento podem talvez emocionar os presentes, na realidade acabam logo por cansar e defraudar. Salvas as melhores intenções de quem as comete, depois de quarenta anos de experiência na questão, a "desobediência litúrgica" não constrói de fato comunidades cristãs melhores, mas, ao contrário, põe em risco a solidez de sua fé e de sua pertença à unidade da Igreja Católica. Não se pode utilizar o caráter mais "aberto" das novas normas litúrgicas como pretexto para desnaturalizar o culto público da Igreja:

"As novas normas simplificaram muito as fórmulas, os gestos, os atos litúrgicos [...] Mas neste campo não se deve ir além do estabelecido: de fato, procedendo assim, se despojaria a liturgia dos sinais sagrados e de sua beleza, que são necessários, para que se realize verdadeiramente na comunidade cristã o mistério da salvação e seja compreendido também, sob o véu das realidades visíveis, através de uma catequese apropriada. A reforma litúrgica de fato não é sinônimo de dessacralização, nem quer ser motivo para esse fenômeno que chamam de a secularização do mundo. É necessário por isso conservar nos ritos dignidade, seriedade, sacralidade" [12].

Entre as graças que esperamos poder obter da celebração do Ano Sacerdotal está portanto também a de uma verdadeira renovação litúrgica no seio da Igreja, para que a sagrada liturgia seja compreendida e vivida pelo que esta é na realidade: o culto público e integral do Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros, culto de adoração que glorifica a Deus e santifica os homens [13].

Notas

[1] Cf. M. Gagliardi, "O sacerdote na Celebração eucarística", Zenit 13.11.2009: http://www.zenit.org/article-23282?l=portuguese

[2] Cf. Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n. 21.

[3] Abreviação de Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia.

[4] C. Giraudo, "La costituzione 'Sacrosanctum Concilium': il primo grande dono del Vaticano II", en La Civiltà Cattolica (2003/IV), pp. 532; 531.

[5] João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, n. 10.

[6] Ibid., n. 52. Cf. também Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n. 28.

[7] "Não é estranho que os abusos tenham sua origem em um falso conceito de liberdade. Posto que Deus nos tem concedido, em Cristo, não uma falsa liberdade para fazer o que queremos, mas sim a liberdade para que possamos realizar o que é digno e justo": Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Redemptionis Sacramentum, n. 7.

[8] Ibid., n. 9.

[9] Ibid., nn. 11-12.

[10] Sagrada Congregação dos Ritos, Eucharisticum Mysterium, n. 20: "Para favorecer o correto desenvolvimento da celebração sagrada e a participação ativa dos fiéis, os ministros não devem apenas limitar-se a realizar seu serviço com exatidão, segundo as leis litúrgicas, mas devem comportar-se de forma que inculquem, por meio deste, o sentido das coisas sagradas"

[11] Bento XVI, Sacramentum Caritatis, n. 38. Veja-se o n. 40, que desenvolve adequadamente o conceito.

[12] Sagrada Congregação para o Culto Divino, Liturgicae instaurationes, n. 1. O texto continua: "A eficácia das ações litúrgicas não está na busca contínua de novidades rituais, ou de simplicações ulteriores, mas no aprofundamento da palavra de Deus e do mistério celebrado, cuja presença está assegurada pela observância dos ritos da Igreja e não dos impostos pelo gosto pessoal de cada sacerdote. Tenha-se presente, ademais, que a imposição de reconstruções pessoais dos ritos sagrados por parte do sacerdote ofende a dignidade dos fiéis e abre caminho para o individualismo e o personalismo na celebração de ações que diretamente pertencem a toda Igreja".

[13] Cf. Pio XII, Mediator Dei, I, 1; Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n. 7.

Tradução: Alexandre Ribeiro
Fonte: Zenit

sábado, 14 de agosto de 2010

Assumpta est Maria in cælum!



CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA DO PAPA PIO XII

MUNIFICENTISSIMUS DEUS

DEFINIÇÃO DO DOGMA DA ASSUNÇÃO
DE NOSSA SENHORA
EM CORPO E ALMA AO CÉU




Introdução

1. Deus munificentíssimo, que tudo pode, e cujos planos de providência são cheios de sabedoria e de amor, nos seus imperscrutáveis desígnios, entremeia na vida os povos e dos indivíduos as dores com as alegrias, para que por diversos caminhos e de várias maneiras tudo coopere para o bem dos que o amam (cf. Rm 8,28).

2. O nosso pontificado, assim como os tempos atuais, tem sido assediado por inúmeros cuidados, preocupações e angústias, devido às grandes calamidades e por muitos que andam afastados da verdade e da virtude. Mas é para nós de grande conforto ver como, à medida que a fé católica se manifesta publicamente cada vez mais ativa, aumenta também cada dia o amor e a devoção para com a Mãe de Deus, e quase por toda parte isso é estímulo e auspício de uma vida melhor e mais santa. E assim sucede que, por um lado, a santíssima Virgem desempenha amorosamente a sua missão de mãe para com os que foram remidos pelo sangue de Cristo, e por outro, as inteligências e os corações dos filhos são estimulados a uma mais profunda e diligente contemplação dos seus privilégios.

3. De fato, Deus, que desde toda a eternidade olhou para a virgem Maria com particular e pleníssima complacência, quando chegou a plenitude dos tempos (Gl 4,4) atuou o plano da sua providência de forma que refulgissem com perfeitíssima harmonia os privilégios e prerrogativas que lhe concedera com sua liberalidade. A Igreja sempre reconheceu esta grande liberalidade e a perfeita harmonia de graças, e durante o decurso dos séculos sempre procurou estudá-la melhor. Nestes nossos tempos refulgiu com luz mais clara o privilégio da assunção corpórea da Mãe de Deus.

4. Esse privilégio brilhou com novo fulgor quando o nosso predecessor de imortal memória, Pio IX, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato esses dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com a própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por esse motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa.

5. Mas Deus quis excetuar dessa lei geral a bem-aventurada virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua concepção imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos.

6. Quando se definiu solenemente que a virgem Maria, Mãe de Deus, foi imune desde a sua concepção de toda a mancha, logo os corações dos fiéis conceberam uma mais viva esperança de que em breve o supremo magistério da Igreja definiria também o dogma da assunção corpórea da virgem Maria ao céu.

Petições para a definição dogmática

7. De fato, sucedeu que não só os simples fiéis, mas até aqueles que, em certo modo, personificam as nações ou as províncias eclesiásticas, e mesmo não poucos Padres do concílio Vaticano pediram instantemente à Sé Apostólica esta definição.

8. Com o decurso do tempo essas petições e votos não diminuíram, antes foram aumentando de dia para dia em número e insistência. Com esse fim fizeram-se cruzadas de orações; muitos e exímios teólogos intensificaram com ardor os seus estudos sobre este ponto, quer em privado, quer nas universidades eclesiásticas ou nas outras escolas de disciplinas sagradas; celebraram-se em muitas partes congressos marianos nacionais e internacionais. Todos esses estudos e investigações mostraram com maior realce que no depósito da fé cristã, confiado à Igreja, também se encontrava a assunção da virgem Maria ao céu. E de ordinário a conseqüência foi enviarem súplicas em que se pedia instantemente a definição solene desta verdade.

9. Acompanhavam os fiéis nessa piedosa insistência os seus sagrados pastores, os quais dirigiram a esta cadeira de S. Pedro semelhantes petições em número muito considerável. Quando fomos elevado ao sumo pontificado, já tinham sido apresentadas a esta Sé Apostólica muitos milhares dessas súplicas, vindas de todas as partes do mundo e de todas as classes de pessoas: dos nossos amados filhos cardeais do Sacro Colégio, dos nossos veneráveis irmãos arcebispos e bispos, das dioceses e das paróquias.

10. Por esse motivo, ao mesmo tempo que dirigíamos a Deus intensas súplicas, para que concedesse à nossa mente a luz do Espírito Santo para decidirmos tão importante causa, estabelecemos normas especiais em que determinamos que se procedesse com todo o cuidado a um estudo mais rigoroso da matéria, e se reunissem e examinassem todas as petições relativas à assunção da santíssima virgem, enviadas à Sé Apostólica desde o tempo do nosso predecessor de feliz memória, Pio IX, até ao presente.(1)

Consulta ao episcopado

11. Mas como se tratava de assunto de tanta importância e transcendência, julgamos oportuno rogar direta e oficialmente a todos os nossos veneráveis irmãos no episcopado, que nos quisessem manifestar explicitamente a sua opinião. Para tal fim, no dia 1° de maio de 1946, dirigimos-lhes a carta encíclica "Deiparae Virginis Mariae" em que fazíamos esta pergunta: "Se vós, veneráveis irmãos, na vossa exímia sabedoria e prudência, julgais que a assunção corpórea da santíssima Virgem pode ser proposta e definida como dogma de fé, e se desejais que o seja, tanto vós como o vosso clero e fiéis".

Doutrina concorde do magistério da Igreja

12. E aqueles que "o Espírito Santo colocou como bispos para reger a Igreja de Deus" (At 20, 28) quase unanimemente deram resposta afirmativa a ambas as perguntas. Essa "singular concordância dos bispos e fiéis" (2) em julgar que a assunção corpórea ao céu da Mãe de Deus podia ser definida como dogma de fé, mostra-nos a doutrina concorde do magistério ordinário da Igreja, e a fé igualmente concorde do povo cristão - que aquele magistério sustenta e dirige - e por isso mesmo manifesta, de modo certo e imune de erro, que tal privilégio é verdade revelada por Deus e contida no depósito divino que Jesus Cristo confiou a sua esposa para o guardar fielmente e infalivelmente o declarar. (3) De fato, esse magistério da Igreja, não por estudo meramente humano, mas pela assistência do Espírito de verdade (cf. Jo 14,26), e portanto absolutamente sem nenhum erro, desempenha a missão que lhe foi confiada de conservar sempre puras e íntegras as verdades reveladas; e pelo mesmo motivo transmite-as sem contaminação e sem lhes ajuntar nem subtrair nada. "Pois - como ensina o concílio Vaticano - o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro não para que, por sua revelação, expressem doutrinas novas, mas para que, com sua assistência, guardassem com cuidado e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos apóstolos, ou seja o depósito da fé". (4) Por essa razão, do consenso universal do magistério da Igreja, deduz-se um argumento certo e seguro para demonstrar a assunção corpórea da bem-aventurada virgem Maria. Esse mistério, pelo que respeita à glorificação celestial do corpo da augusta Mãe de Deus, não podia ser conhecido por nenhuma faculdade da inteligência humana só com as forças naturais. É, portanto, verdade revelada por Deus, e por essa razão todos os filhos da Igreja têm obrigação de a crer firme e fielmente. Pois, como afirma o mesmo concílio Vaticano, "temos obrigação de crer com fé divina e católica, todas as coisas que se contêm na palavra de Deus escrita ou transmitida oralmente, e que a Igreja, com solene definição ou com o seu magistério ordinário e universal, nos propõe para crer, como reveladas por Deus".(5)

Testemunhos da crença na assunção

13. Desde tempos remotíssimos, pelo decurso dos séculos, aparecem-nos testemunhos, indícios e vestígios desta fé comum da Igreja; fé que se manifesta cada vez mais claramente.

14. Os fiéis, guiados e instruídos pelos pastores, souberam por meio da Sagrada Escritura que a virgem Maria, durante a sua peregrinação terrestre, levou vida cheia de cuidados, angústias e sofrimentos; e que, segundo a profecia do santo velho Simeão, uma espada de dor lhe traspassou o coração, junto da cruz do seu divino Filho e nosso Redentor. E do mesmo modo, não tiveram dificuldade em admitir que, à semelhança do seu unigênito Filho, também a excelsa Mãe de Deus morreu. Mas essa persuasão não os impediu de crer expressa e firmemente que o seu sagrado corpo não sofreu a corrupção do sepulcro, nem foi reduzido à podridão e cinzas aquele tabernáculo do Verbo divino. Pelo contrário, os fiéis iluminados pela graça e abrasados de amor para com aquela que é Mãe de Deus e nossa Mãe dulcíssima, compreenderam cada vez com maior clareza a maravilhosa harmonia existente entre os privilégios concedidos por Deus àquela que o mesmo Deus quis associar ao nosso Redentor. Esses privilégios elevaram-na a uma altura tão grande, que não foi atingida por nenhum ser criado, excetuada somente a natureza humana de Cristo.

15. Patenteiam inequivocamente esta mesma fé os inumeráveis templos consagrados a Deus em honra da assunção de nossa Senhora, e as imagens neles expostas à veneração dos fiéis, que mostram aos olhos de todos este singular triunfo da santíssima Virgem. Muitas cidades, dioceses e regiões foram consagradas ao especial patrocínio e proteção da assunção da Mãe de Deus. Do mesmo modo, com aprovação da Igreja, fundaram-se Institutos religiosos com o nome deste privilégio. Nem se deve passar em silêncio que no rosário de nossa Senhora, cuja reza tanto recomenda esta Sé Apostólica, há um mistério proposto à nossa meditação, que, como todos sabem, é consagrado à assunção da santíssima Virgem ao céu.

Testemunho da liturgia

16. De modo ainda mais universal e esplendoroso se manifesta esta fé dos pastores e dos fiéis, com a festa litúrgica da assunção celebrada desde tempos antiquíssimos no Oriente e no Ocidente. Nunca os santos padres e doutores da Igreja deixaram de haurir luz nesta solenidade, pois, como todos sabem, a sagrada liturgia, "sendo também profissão das verdades católicas, e estando sujeita ao supremo magistério da Igreja, pode fornecer argumentos e testemunhos de não pequeno valor para determinar algum ponto da doutrina cristã".(6)

17. Nos livros litúrgicos em que aparece a festa da Dormição ou da Assunção de santa Maria, encontram-se expressões que de uma ou outra maneira concordam em referir que, quando a virgem Mãe de Deus passou deste exílio para o céu, por uma especial providência divina, sucedeu ao seu corpo algo de consentâneo com a dignidade de Mãe do Verbo encarnado e com os outros privilégios que lhe foram concedidos. É o que se afirma, para apresentarmos um exemplo elucidativo, no Sacramentário enviado pelo nosso predecessor de imortal memória Adriano I, ao imperador Carlos Magno. Nele se diz: "É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pode ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor".(7)

18. Aquilo que aqui se refere com a sobriedade de palavras costumeiras na Liturgia romana, exprime-se mais difusamente nos outros livros das antigas liturgias orientais e ocidentais. O Sacramentário Galicano, por exemplo, chama a esse privilégio de Maria, "inexplicável mistério, tanto mais digno de ser proclamado, quanto é único entre os homens, pela assunção da virgem". E na liturgia bizantina a assunção corporal da virgem Maria é relacionada diversas vezes não só com a dignidade de Mãe de Deus, mas também com os outros privilégios, especialmente com a sua maternidade virginal, decretada por um singular desígnio da Providência divina: "Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação".(8)

A festa da Assunção

19. A Sé Apostólica, herdeira do múnus confiado ao Príncipe dos apóstolos de confirmar na fé os irmãos (cf. Lc 22,32), com sua autoridade foi tornando cada vez mais solene esta celebração. Esse fato estimulou eficazmente os fiéis a irem-se apercebendo mais e mais da importância deste mistério. E assim, a festa da assunção, que ao princípio tinha o mesmo grau de solenidade que as restantes festas marianas, foi elevada ao rito das festas mais solenes do ciclo litúrgico. O nosso predecessor S. Sérgio I, ao prescrever as ladainhas, ou a chamada procissão estacional, nas festas de nossa Senhora, enumera simultaneamente a Natividade, a Anunciação, a Purificação e a Dormição.(9) A festa já se celebrava com o nome de assunção da bem-aventurada Mãe de Deus, no tempo de S. Leão IV Esse papa procurou que se revestisse de maior esplendor, mandando ajuntar-lhe a vigília e a oitava. E o próprio pontífice quis participar nessas solenidades, acompanhado de imensa multidão. (10) Na vigília já de há muito se guardava o jejum, como se prova com evidência do que afirma o nosso predecessor S. Nicolau I, ao tratar dos principais jejuns "que... desde os tempos antigos observava e ainda observa a santa Igreja romana".(11)

20. A Liturgia da Igreja não cria a fé católica, mas supõe-na; e é dessa fé que brotam os ritos sagrados, como da árvore os frutos. Por isso os santos Padres e doutores nas homilias e sermões que nesse dia fizeram ao povo, não foram buscar essa doutrina à liturgia, como a fonte primária; mas falaram dela aos fiéis como de coisa sabida e admitida por todos. Declararam-na melhor, explicaram o seu significado e o fato com razões mais profundas, destacando e amplificando aquilo a que muitas vezes os livros litúrgicos apenas aludiam em poucas palavras, a saber, que com esta festa não se comemora somente a incorrupção do corpo morto da santíssima Virgem, mas principalmente o triunfo por ela alcançado sobre a morte e a sua celeste glorificação à semelhança do seu Filho unigênito, Jesus Cristo.

Testemunho dos santos Padres

21. S. João Damasceno, que entre todos se distingue como pregoeiro dessa tradição, ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama com veemente eloqüência: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara. Convinha que aquela que viu o seu Filho na cruz, com o coração traspassado por uma espada de dor de que tinha sido imune no parto, contemplasse assentada à direita do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse o que era do Filho, e que fosse venerada por todas as criaturas como Mãe e Serva do mesmo Deus".(12)

22. Condizem com essas palavras de s. João Damasceno as de muitos outros que afirmam a mesma doutrina. E não são menos expressivas, nem menos exatas, as palavras que se encontram nos sermões proferidos pelos santos Padres mais antigos ou da mesma época, ordinariamente por ocasião dessa festividade. Assim, para citar outro exemplo, s. Germano de Constantinopla julgava que a incorrupção do corpo da virgem Maria Mãe de Deus, e a sua assunção ao céu são corolários não só da sua maternidade divina, mas até da santidade singular daquele corpo virginal: "Vós, como está escrito, aparecestes 'em beleza'; o vosso corpo virginal é totalmente santo, totalmente casto, totalmente domicílio de Deus de forma que até por este motivo foi isento de desfazer-se em pó; foi, sim, transformado, enquanto era humano, para viver a vida altíssima da incorruptibilidade; mas agora está vivo, gloriosíssimo, incólume e participante da vida perfeita".(13) Outro escritor antiquíssimo assevera por sua vez: "A gloriosíssima Mãe de Cristo, Deus e Salvador nosso, dador da vida e da imortalidade, foi glorificada e revestida do corpo na eterna incorruptibilidade, por aquele mesmo que a ressuscitou do sepulcro e a chamou a si duma forma que só ele sabe".(14)

23. À medida que a festa litúrgica se foi espalhando, e celebrando mais devotamente, maior foi o número de bispos e oradores sagrados que julgaram de seu dever explicar com toda a clareza o mistério que se venerava nesta solenidade e mostrar como ela estava intimamente relacionada com as outras verdades reveladas.

Testemunho dos teólogos

24. Entre os teólogos escolásticos, não faltaram alguns, que, pretendendo penetrar mais profundamente nas verdades reveladas, e mostrar o acordo entre a chamada razão teológica e a fé católica, notaram a estreita conexão existente entre este privilégio da assunção da santíssima Virgem e as demais verdades contidas na Sagrada Escritura.

25. Partindo desse pressuposto, apresentam diversas razões para corroborar esse privilégio mariano. A razão primária e fundamental diziam ser o amor filial de Cristo para o levar a querer a assunção de sua Mãe ao céu. E advertiam mais, que a força dos argumentos se baseava na incomparável dignidade da sua maternidade divina e em todas as graças que dela derivam: a santidade altíssima que excede a santidade de todos os homens e anjos, a íntima união de Maria com o seu Filho, e sobretudo o amor que o Filho consagrava a sua Mãe digníssima.

26. Muitas vezes os teólogos e oradores sagrados, seguindo os passos dos santos Padres,(15) para explicarem a sua fé na assunção, serviram-se com certa liberdade de fatos e textos da Sagrada Escritura. E assim, para mencionar só alguns mais empregados, houve quem citasse a este propósito as palavras do Salmista: "Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca de vossa santificação" (Sl 131, 8); e na Arca da Aliança, feita de madeira incorruptível e colocada no templo de Deus, viam como que uma imagem do corpo puríssimo da virgem Maria, preservado da corrupção do sepulcro, e elevado a tamanha glória no céu. Do mesmo modo, ao tratar desta matéria, descrevem a entrada triunfal da Rainha na corte celeste, e como se vai sentar a direita do divino Redentor (Sl 44,10.14-16); e recordam a propósito a esposa dos Cantares "que sobe pelo deserto, como uma coluna de mirra e de incenso" para ser coroada (Ct 3,6; cf. 4,8; 6,9). Ambas são propostas como imagens daquela Rainha e Esposa celestial, que sobe ao céu com o seu divino Esposo.

27. Os doutores escolásticos vislumbram igualmente a assunção da Mãe de Deus não só em várias figuras do Antigo Testamento, mas também naquela mulher, revestida de sol, que o apóstolo s. João contemplou na ilha de Patmos (Ap 12, ls.). Porém, entre os textos do Novo Testamento, consideraram e examinaram com particular cuidado aquelas palavras: "Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres" (Lc 1,28), pois viram no mistério da assunção o complemento daquela plenitude de graça, concedida à santíssima Virgem, e uma singular bênção contraposta à maldição de Eva.

Na teologia escolástica

28. Por esse motivo, nos primórdios da teologia escolástica, o piedosíssimo varão Amadeu, bispo de Lausana, afirmava que a carne da virgem Maria permaneceu incorrupta - nem se pode crer que o seu corpo padecesse a corrupção -, porque se uniu de novo à alma, e juntamente com ela penetrou na corte celestial. "Pois ela era cheia de graça e bendita entre as mulheres (Lc 1,28). Só ela mereceu conceber o Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, e sendo virgem deu-o à luz, amamentou-o, trouxe-o no regaço, e prestou-lhe todos os cuidados maternos".(16)

29. Entre os escritores sagrados que naquele tempo com vários textos, comparações e analogias tiradas das divinas Letras, ilustraram e confirmaram a doutrina da assunção em que piamente acreditavam, ocupa lugar primordial o doutor evangélico s. Antônio de Pádua. Na festa da assunção, ao comentar aquelas palavras de Isaías: "glorificarei o lugar dos meus pés" (Is 60,13), afirmou com segurança que o divino Redentor glorificou de modo mais perfeito a sua Mãe amantíssima, da qual tomara carne humana. "Daqui, vê-se claramente", diz, "que o corpo da santíssima Virgem foi assunto ao céu, pois era o lugar dos pés do Senhor". Pelo que, escreve o Salmista: "Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santificação". E assim como, acrescenta ainda, Jesus Cristo ressuscitou triunfante da morte e subiu para a direita do Pai, assim também "ressuscitou a Arca da sua santificação, quando neste dia a virgem Mãe foi assunta ao tálamo celestial".(17)

No período áureo

30. Quando, na Idade Média, a teologia escolástica atingiu o maior esplendor, s. Alberto Magno, para demonstrar essa verdade, apresenta vários argumentos fundados na Sagrada Escritura, na tradição, na liturgia e em razões teológicas, e conclui: "Por estas e outras muitas razões e autoridades, é evidente que a bem-aventurada Mãe de Deus foi assunta ao céu em corpo e alma sobre os coros dos anjos. E cremos que isto é absolutamente verdadeiro".(18) E num sermão pregado em dia da Anunciação de nossa Senhora, ao explicar aquelas palavras do anjo: "Ave, cheia de graça...", o doutor universal compara a santíssima Virgem com Eva, e afirma clara e terminantemente que Maria foi livre das quatro maldições que caíram sobre Eva.(19)

31. O Doutor Angélico, seguindo as pisadas do mestre, ainda que nunca trate expressamente do assunto, no entanto sempre que se oferece a ocasião fala dele, e com a Igreja católica afirma que o corpo de Maria juntamente com a alma foi levado ao céu.(20)

32. É da mesma opinião, entre outros muitos, o Doutor Seráfico, o qual tem como certo que, assim como Deus preservou Maria santíssima da violação do pudor e da integridade virginal ao conceber e dar à luz o seu Filho, assim não permitiu que o seu corpo se desfizesse em podridão e cinzas.(21) Aplica a santíssima Virgem, em sentido acomodatício, aquelas palavras da Sagrada Escritura: "Quem é esta que sobe do deserto, cheia de gozo, e apoiada no seu amado?" (Ct 8,5), e raciocina desta forma: "Daqui pode concluir-se que ela está ali corporalmente (na glória celeste)... Porque... a sua felicidade não seria plena se ali não estivesse em pessoa; ora a pessoa não é só a alma, mas o composto; logo é claro que está ali segundo o composto, isto é, em corpo e alma; de outro modo não gozaria de felicidade plena".(22)

Na escolástica posterior

33. Na escolástica posterior, ou seja no século XV, são Bernardino de Sena, resumindo e ponderando cuidadosamente tudo quanto os teólogos medievais tinham escrito a esse propósito, não julgou suficiente referir as principais considerações que os antigos doutores tinham proposto, mas acrescentou outras novas. Por exemplo, a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo - semelhança que nem sequer nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos céus - exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Cristo".(23) Portanto, é muito conveniente e conforme à razão que tanto o corpo como a alma do homem e da mulher tenham alcançado já a glória no céu; e, finalmente, o fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível" da assunção.(24)

Nos tempos modernos

34. Em tempos mais recentes, as razões dos santos Padres e doutores, acima aduzidas, foram usadas comumente. Seguindo o comum sentir dos cristãos, recebido dos tempos antigos s. Roberto Belarmino exclamava: "Quem há, pergunto, que possa pensar que a arca da santidade, o domicílio do Verbo, o templo do Espírito Santo tenha caído em ruínas? Horroriza-se o espírito só com pensar que aquela carne que gerou, deu a luz, alimentou e transportou a Deus, se tivesse convertido em cinza ou fosse alimento dos vermes".(25)

35. De igual forma s. Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não a levava para o céu?"(26) E s. Afonso escreve por sua vez: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que ele mesmo tomara a própria carne".(27)

36. Quando já tinha aparecido em toda a sua luz o mistério que se celebra nesta festa, não faltaram doutores que, em vez de tratar das razões teológicas pelas quais se demonstrasse a absoluta conveniência de crença na assunção corpórea da Virgem santíssima, voltaram o pensamento para a fé da Igreja, mística esposa de Cristo, sem mancha nem ruga (cf. Ef 5,27), que o Apóstolo chama "coluna e sustentáculo da verdade" ( 1Tm 3,15). E apoiados nesta fé comum pensaram que seria temerária, para não dizer herética, a opinião contrária. S. Pedro Canísio, como outros muitos, depois de declarar que o termo assunção se referia à glorificação não só da alma mas também do corpo, e que a Igreja há muitos séculos venerava e celebrava solenemente este mistério mariano, observa: "Esta opinião é admitida há vários séculos e tão impressa na alma dos fiéis, é tão recomendada pela Igreja, que quem negasse a assunção ao céu do corpo de Maria santíssima nem sequer seria ouvido com paciência, mas seria vaiado como pertinaz, ou mesmo temerário, e imbuído mais de espírito herético do que católico".(28)

37. Pela mesma época, o Doutor Exímio estabelecia esta regra para a mariologia: "Os mistérios da graça que Deus operou na virgem Maria não se devem medir pelas leis ordinárias, senão pela onipotência divina, suposta a conveniência do fato e a não contradição ou repugnância com as Escrituras".(29) E apoiado na fé de toda a Igreja, podia concluir que o mistério da assunção devia crer-se com a mesma firmeza que o da imaculada conceição, e já então julgava que ambas as verdades podiam ser definidas.

Fundamento escriturístico

38. Todos esses argumentos e razões dos santos Padres e teólogos apóiam-se, em último fundamento, na Sagrada Escritura. Esta nos apresenta a Mãe de Deus extremamente unida ao seu Filho, e sempre participante da sua sorte. Pelo que parece quase que impossível contemplar aquela que concebeu, deu à luz, alimentou com o seu leite, a Cristo, e o teve nos braços e apertou contra o peito, estivesse agora, depois da vida terrestre, separada dele, se não quanto à alma, ao menos quanto ao corpo. O nosso Redentor é também filho de Maria; e como observador perfeitíssimo da lei divina não podia deixar de honrar a sua Mãe amantíssima logo depois do Eterno Pai. E podendo ele adorná-la com tamanha honra, preservando-a da corrupção do sepulcro, deve crer-se que realmente o fez.

39. E convém sobretudo ter em vista que, já a partir do século II, os santos Padres apresentam a virgem Maria como nova Eva, sujeita sim, mas intimamente unida ao novo Adão na luta contra o inimigo infernal. E essa luta, como já se indicava no Protoevangelho, acabaria com a vitória completa sobre o pecado e sobre a morte, que sempre se encontram unidas nos escritos do apóstolo das gentes (cf. Rm 5; 6; lCor 15,21-26; 54-57). Assim como a ressurreição gloriosa de Cristo constituiu parte essencial e último troféu desta vitória, assim também a vitória de Maria santíssima, comum com a do seu Filho, devia terminar pela glorificação do seu corpo virginal. Pois, como diz ainda o apóstolo, "quando... este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá o que está escrito: a morte foi absorvida na vitória" (1Cor 15,14).

40. Deste modo, a augustíssima Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade "com um único decreto" (30) de predestinação, imaculada na sua concepção, sempre virgem, na sua maternidade divina, generosa companheira do divino Redentor que obteve triunfo completo sobre o pecado e suas conseqüências, alcançou por fim, como suprema coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos (cf. 1Tm 1,17).

Oportunidade da definição

41. Considerando que a Igreja universal - que é assistida pelo Espírito de verdade, que a dirige infalivelmente para o conhecimento das verdades reveladas - no decurso dos séculos manifestou de tantas formas a sua fé; considerando que os bispos de todo o mundo quase unanimemente pedem que seja definida como dogma de fé divina e católica a verdade da assunção corpórea da santíssima Virgem ao céu; considerando que esta verdade se funda na Sagrada Escritura, está profundamente gravada na alma dos fiéis, e desde tempos antiquíssimos é comprovada pelo culto litúrgico, e concorda, inteiramente, com as outras verdades reveladas, e tem sido esplendidamente explicada e declarada pelos estudos, sabedoria e prudência dos teólogos - julgamos chegado o momento estabelecido pela providência de Deus, para proclamarmos solenemente este privilégio insigne da virgem Maria. (42). Nós, que colocamos o nosso pontificado sob o especial patrocínio da santíssima Virgem, à qual recorremos em tantas circunstâncias tristes, nós, que consagramos publicamente todo o gênero humano ao seu imaculado Coração, e que experimentamos muitas vezes o seu poderoso patrocínio, confiamos firmemente que esta solene proclamação e definição será de grande proveito para a humanidade inteira, porque reverte em glória da Santíssima Trindade, a qual a virgem Mãe de Deus está ligada com laços muito especiais. É de esperar também que todos os fiéis cresçam em amor para com a Mãe celeste, e que os corações de todos os que se gloriam do nome de cristãos se movam a desejar a união com o corpo místico de Jesus Cristo, e que aumentem no amor para com aquela que tem amor de Mãe para com os membros do mesmo augusto corpo. E também é lícito esperar que, ao meditarem nos exemplos gloriosos de Maria, mais e mais se persuadam todos do valor da vida humana, se for consagrada ao cumprimento integral da vontade do Pai celeste e a procurar o bem do próximo. Enquanto o materialismo e a corrupção de costumes que dele se origina ameaçam subverter a luz da virtude, e destruir vidas humanas, suscitando guerras, é de esperar ainda que este luminoso e incomparável exemplo, posto diante dos olhos de todos, mostre com plena luz qual o fim a que se destinam a nossa alma e o nosso corpo. E, finalmente, esperamos que a fé na assunção corpórea de Maria ao céu torne mais firme e operativa a fé na nossa própria ressurreição.

43. E é para nós motivo de imenso regozijo que este fato, por providência de Deus, se realize neste Ano santo que está a decorrer, e que assim possamos, enquanto se celebra este jubileu maior, adornar com esta pedra preciosa a fronte da Virgem santíssima, e deixar um monumento, mais perene que o bronze, da nossa ardente devoção para com a Mãe de Deus.

Definição solene do dogma

44. "Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".

45. Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

46. Para que chegue ao conhecimento de toda a Igreja esta nossa definição da assunção corpórea da virgem Maria ao céu, queremos que se conservem esta carta para perpétua memória; mandamos também que, aos seus transuntos ou cópias, mesmo impressas, desde que sejam subscritas pela mão de algum notário público, e munidas com o selo de alguma pessoa constituída em dignidade eclesiástica, se lhes dê o mesmo crédito que à presente, se fosse apresentada e mostrada.

47. A ninguém, pois, seja lícito infringir esta nossa declaração, proclamação e definição, ou temerariamente opor-se-lhe e contrariá-la. Se alguém presumir intentá-lo, saiba que incorre na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no ano do jubileu maior, de 1950, no dia 1 ° de novembro, festa de todos os santos, no ano XII do nosso pontificado.

Eu PIO, Bispo da Igreja Católica assim definindo, subscrevi.




--------------------------------------------------------------------------------

Notas

1. Petitiones de Assumptione corporea B. Virginis Mariae in caelum definienda ad S. Sedem delatae, 2 vol. Typis Polyglottis Vaticanis,1942.

2. Bula Ineffabilis Deus, Acta Pii IX, parte I, vol. 1, p. 615.

3. Cf. Conc. Vat. I, Const. dogm. Dei Filius de fide catholica, cap. 4.

4. Conc. Vat. I, Const. dogm. Pastor aeternus de Ecclesia Christi, cap. 4.

5. Conv Vat. I, Const. dogm. Dei Filius de feide catholica. cap. 3.

6. Carta Encíclica Mediator Dei, AAS 39( 1947), p. 541.

7. Sacramentário gregoriano.

8. Menaei totius anni..

9. Liber Pontificalis.

10. Ibid.

11. Responsa Nicolai Papae 1 ad Consulta Bulgarorum, 13 nov. 866.

12. S. João Damasc., Encomium in Dormitionem Dei Genetricis semperque Virginis Mariae, hom. II, 14; cf. também ibid. n. 3).

13. S. Germ. Const., In Sanctae Dei Genitricis Dormitionem, sermo 1.

14. Encomium in Dormitionem Sanctissimae Dominae nostrae Deiparae semperque Virginis Mariae [atribuído a S. Modesto de Jerusalém] n. 14.

15. Cf. S. João Damasc., Encomium in Dormitionem Dei Genetricis semperque Virginis Mariae, hom. II, 2, 11; Encomium in Dormitionem... [atribuído a S. Modesto de Jerusalém].

16. Amadeu de Lausana, De Beatae Virginis obitu, Assumptione in Caelum, exaltatione ad Filii dexteram.

17. S. Antônio de Pádua, Sermones dominicales et in solemnitatibus. In Assumptione S. Mariae Virginis Sermo.

18. S. Alberto Magno, Mariale sive quaestiones super Evang. "Missus est", q. 132.

19. Idem, Sermones de Sanctis, sermo XV: In Annuntiatione B. Mariae; cf. também Mariale, q.132.

20. Cf. Summa Theol. III, q. 27, a. 1. c.; ibid. q. 83, a. 5 ad 8; Expositio salutationis angelicae; In symb. Apostolorum expositio, art. 5; in IV Sent. D. 12, q. l, art. 3, sol. 3; D. 43, q. l, art. 3, sol. I e 2.

21. Cf. S. Boaventura, De Nativitate B. Mariae Virginis, sermo 5.

22. S. Boaventura, De Assumptione B. Mariae Virginis, sermo 1.

23. S. Bernardino de Sena, In Assumptione B. M. Virginis, sermo 2.

24. Idem, l.c.

25. S. Roberto Belarmino, Conciones habitae Lovanii, concio 40: De Assumptione B. Mariae Virginis.

26. Oeuvres de S. François de Sales, Sermon autographe pour la fête de l'Assomption.

27. S. Afonso Maria de Ligório, As glórias de Maria, parte II, disc. 1.

28. S. Pedro Canísio, De Maria Virgine.

29. E Suárez, In tertiam partem D. Thomae, q. 27, art. 2, disp. 3, sect. 5, n. 31.

30. Bula Ineffabilis Deus, l.c, p. 599.

Fonte: vatican.va

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O sacerdote na “praeparatio” e na ação de graças da Santa Missa



Coluna de teologia litúrgica dirigida por Mauro Gagliardi


ROMA, domingo, 27 de junho de 2010 (ZENIT.org) - O padre Paul Gunter, professor do Pontifício Instituto Litúrgico de Roma e Consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, oferece-nos neste artigo uma detalhada descrição das orações que o sacerdote pode utilizar para se preparar para a celebração litúrgica da Santa Missa e para fazer a Ação de Graças depois dela. Estas orações se encontram, com diferente extensão, nos missais das duas formas do Rito Romano. O artigo evidencia a importância de uma preparação para a celebração e do devido agradecimento posterior, seja em base do vínculo entre o exemplo de Cristo e a vida do sacerdote, quer pelos efeitos benéficos que este costume produz também nos fiéis que participam da liturgia (Mauro Gagliardi).


Por Paul Gunter, OSB

1. A oração íntima e pessoal de Jesus

Para o sacerdote, frutificar na vida e no ministério depende da união com Deus, união que está na base também do fato de que os fiéis se dirijam a ele para que reze por eles. Jesus Cristo confiou àqueles que o seguiam mais de perto uma palavra que esclarece o sentido de todo o bem que fariam: "Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer". O próprio Senhor Jesus, no contexto dos muitos milagres realizados, estabeleceu um tempo para estar só, para dedicar à oração a seu Pai celestial. Para Jesus, a oração oficial da liturgia era sustentada por uma vida interior na qual a reserva apoiava essa intimidade que nutre a oração pessoal. As dimensões eclesial e comunitária se reforçam por uma relação pessoal similar com Deus, que cada fiel espera poder aprofundar.

A busca de Deus, que dá significado à vida dos que o amam, serve de recordação quotidiana do fato de que toda bênção provém e ao mesmo tempo se dirige para o Deus onipotente. A Sagrada Escritura descreve de forma vívida o alimento que Jesus tomava de sua vida de oração escondida: "ele se retirava a lugares desertos para orar" (Lc 5, 16). Do mesmo modo, notamos a importância dos diferentes momentos do dia, pelo fato de que Jesus se mostra particularmente atento ao silêncio da oração, em que busca a vontade do Pai. Momentos similares animam um especial recolhimento e uma proximidade ininterrupta: "De madrugada, quando ainda estava bem escuro, Jesus se levantou e saiu rumo a um lugar deserto. Lá, ele orava" (Mc 1, 35); "Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós, para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho" (Mt 14,23).

2. A oração íntima e pessoal do sacerdote

O sacerdote, consciente de participar na obra de Cristo, esforça-se por seguir seu exemplo, por guiar o santo povo de Deus ao Pai, através de Cristo no Espírito Santo. Ele sabe muito bem que, dado que seus defeitos danificam a credibilidade de seu testemunho, deve pedir com não menor urgência a Deus que infunda nele as virtudes próprias de seu estado. Parte da homilia proposta no rito de ordenação do presbítero instrui aquele que vai ser ordenado desta forma: "Assim continuarás a obra de santificação de Cristo. Através de teu ministério, o sacrifício espiritual dos fiéis se faz perfeito, porque está unido ao sacrifício de Cristo, é oferecido através de tuas mãos em nome da Igreja de forma incruenta sobre altar, na celebração dos sagrados mistérios. Reconhece o que fazes, imita aquele que tocas, para que, celebrando o mistério da morte e ressurreição do Senhor, possas mortificar em ti mesmo todos os vícios e preparar-te para caminhar em uma vida nova" [1].

Vê-se, por isso, que o motivo de uma particular preparação do sacerdote antes da Missa e o agradecimento depois dela reside no benefício para a Igreja inteira, porque o sacerdote que santifica o povo cristão necessita em primeiro lugar de ser moldado pelo espírito de santidade. Sempre é de ajuda para o sacerdote tomar um momento para considerar os textos que rezará durante a Missa, seja no dia em que a assembleia participará, ou não. Oportunas reflexões prévias sobre os textos podem estimular um desejo mais profundo de Deus. A preparação textual constitui uma preparação litúrgica coerente para a Santa Missa. Um sacerdote que cultiva o silêncio pessoal no tempo que precede e que segue à Santa Missa, com sua própria disposição animará o espírito de meditação.

Um sacerdote em atenção pastoral poderia ter de lutar para estabelecer o silêncio desejável em toda sacristia, especialmente se se apresenta a necessidade de ter de receber nela os fiéis. Mas precisamente para ele em particular, os textos de preparação antes da Missa e de agradecimento depois desta podem ser rezados em qualquer momento. Estes reconhecem também as limitações de tempo e por isso se apresentam como um apoio espiritual mais que como uma imposição de obrigação sobre o sacerdote que tenta celebrar a Missa de modo mais reverente possível. Deve-se assinalar que a rubrica que se encontra sob os títulos da Praeparatio ad Missam e da Gratiarum Actio no Missal de 1962 reconhece estas exigências concretas do sacerdote [2]. Nenhum ato de amor, por definição, é apressado. Tendo oferecido o supremo sacrifício do amor de Cristo, é de esperar que um sacerdote seja movido a fazer o que seja possível para encontrar um tempo, ainda que seja breve, para uma ação de graças depois da Missa. E se sentirá reforçado por tê-lo feito.

A preparação de um sacerdote para a Missa será ulteriormente apoiada pelo ciclo da Liturgia das Horas, que enriquece a vida de todo sacerdote. A antiga sabedoria do Ritus Servandus in Celebratione Missae, que se encontra ainda na primeira parte do Missal de 1962, presume a importância intrínseca do Ofício Divino para a vida interior do presbítero. Esta estabelecia que o Mattutino e as Laudes deveriam estar completos antes da celebração. Também se deve dizer que o contexto dessa prescrição secular não podia ter presente a Missa da tarde [3].

Dado que a Missa celebra-se atualmente em qualquer hora do dia litúrgico, já não se aplica esta norma de modo restritivo, no entanto, os Princípios e Normas para a Liturgia das Horas explicam atentamente a conexão entre a celebração da Eucaristia e a Liturgia das Horas: "Cristo mandou: ‘há que rezar sempre, sem nunca desistir'(Lc 18, 1). Por isso, a Igreja, obedecendo fielmente a este mandato, não cessa nunca de elevar orações e nos exorta com estas palavras: ‘Por meio de Jesus, ofereçamos a Deus um perene sacrifício de louvor' (Hb 13, 15). A este preceito, a Igreja responde não só celebrando a Eucaristia, mas também de outras formas, e especialmente com a Liturgia das Horas, a qual, entre as demais ações litúrgicas, tem como característica, por antiga tradição cristã, santificar todo o transcurso do dia e da noite" [4].

3. A Praeparatio ad Missam

3.1 A comparação dos textos oferecidos para a Praeparatio mostra que as próprias orações estão incluídas nas duas formas do Rito Romano, ainda que tenham sido reduzidas a quatro no Missale Romanum de 1970. Neste, encontramos a oração Ad Mensam de Santo Ambrósio; a Omnipotens sempiterne Deus, ecce accedo de São Tomás de Aquino; uma oração à Beata Virgem Maria, O Mater pietatis et misericordiae; e a Fórmula de Intenção Ego volo celebrare Missam [5]. À raiz de uma primeira reforma das indulgências feita depois do Concílio Vaticano II e publicada no Enchiridion das Indulgências de 1968, não se mencionam as indulgências que foram unidas à recitação destas orações por Pio IX, cujos detalhes tinham sido publicados no Missal de 1962.

3.2 Amplos textos adornam esse Missal, a antífona Ne reminiscaris pede a Deus que seja misericordioso apesar de nossos pecados e dos daqueles que nos precederam. Esta vai seguida dos salmos 83, 84, 85, 115 e 129. O Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison e o Pater noster, cujas duas últimas linhas formam o início de uma série de versículos, são seguidos por um número de orações breves. Em alguns manuais devocionais, estas sete orações se atribuem a Santo Ambrósio e estão assinaladas aos diferentes dias da semana. Seja como for, pelo modo como estão colocadas no Missal, considera-se que se devem dizer sucessivamente sob uma única conclusão. Todas, exceto a sétima, concentram-se sobre a obra de santificação do Espírito Santo. A sétima é seguida por uma doxologia mais longa, que conclui a série. A primeira reza para que o Espírito Santo resplandeça em nossos corações, para que possamos celebrar dignamente os santos mistérios. A segunda pede que possamos amar a Deus perfeitamente e louvá-lo dignamente. A terceira, que possamos servir a Deus na castidade e pureza de espírito, enquanto que a quarta implora ao Paráclito que ilumine nossas mentes. A quinta pede a força do Espírito Santo para expulsar as forças do inimigo. A sexta pede a sabedoria e a consolação, e a última pede a Deus que nos purifique e que faça de nós o lugar de sua morada.

3.3 A extensa Oratio Sacerdotis ante Missam está dividida no Missal em sete partes, uma por cada dia da semana, e forma uma meditação orante sobre a imitação das virtudes de Cristo, Sumo Sacerdote. Seu significado é tão confortante como exigente. A relevância de seus diversos temas é adequada a seu estilo literário, que é insistente e íntimo. No domingo, o sacerdote pede ao Espírito Santo que o ensine a tratar os santos mistérios com reverência, honra, devoção e íntimo temor. Na segunda-feira, concentra-se sua necessidade de castidade perfeita, enquanto que na terça-feira, o sacerdote reconhece sua própria indignidade ao celebrar a Missa e, enquanto proclama sua fé no que Deus pode suprir quando lhe falte, pede para perceber sua presença enquanto celebra e também ser rodeado pelos anjos. Na quarta-feira, sai à luz o elenco das necessidades sociais das pessoas pelas quais Cristo derramou seu Sangue. Na quinta-feira, o sacerdote, enquanto implora a misericórdia divina, recorda como a providência socorre a fragilidade humana: "Tu amas tudo o que existe, e não deprecias nada de quanto fizeste" [6]. Na sexta-feira, o sacerdote reza especialmente pelos defuntos e no sábado reflete sobre o grande dom do Santíssimo Sacramento e suplica que este lhe possa conceder a ver a Deus face a face.

3.4 O Ad Mensam de Santo Ambrósio pede que o Corpo e o Sangue possam perdoar ao sacerdote seus pecados e protegê-lo de seus inimigos. A Oração de São Tomás de Aquino, em contrapartida, pede que o poder curador do Santíssimo Sacramento possa preparar o sacerdote para a visão eterna de Deus. Na Oração da Beata Virgem Maria, o sacerdote reza não só por si mesmo, mas por todos seus irmãos que celebram a Missa nesse dia em todo o mundo. Seguem orações a São José, a todos os anjos e santos e, finalmente, uma oração ao santo em honra do qual será celebrada a Missa. A Fórmula de Intenção recorda ao sacerdote a intenção da Igreja a respeito da celebração da Missa, assim como seu papel dentro da mesma. O sacerdote não opera sozinho. O que ele realiza foi entregue por Cristo a sua Igreja, confirmado pelo Magistério e apoiado pela Tradição. O sacerdote faz presente o Corpo e o Sangue de Cristo. Ele segue o rito da santa Igreja Católica. Seu objetivo é louvar a Deus e a Igreja celeste, enquanto reza pela terrena, e em particular por todos aqueles que se encomendaram a suas orações, como também pelo bem-estar de toda Igreja Católica. Depois, ao rezar por todos os fiéis, o sacerdote pede que o Senhor conceda a ele e a todos alegria com paz, mudança de vida, um espaço de verdadeira penitência, a graça e o consolo do Espírito Santo e a perseverança nas boas obras.

4. A Gratiarum Actio post Missam

4.1 O corpo de textos que forma o agradecimento após a Missa mostra amor, humildade e fé que se exaltam no dom sublime da Santíssima Eucaristia. O Missale Romanum de 2002 contém a Oração Universal atribuída ao Papa Clemente XI e a Ave Maria. Ademais, em comum com o Missal de 1962, contém a Oração de Santo Tomás de Aquino; as Aspirações ao Santíssimo Redentor ou Anima Christi; a Oferenda de si, ou Suscipe; a Oração ante Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, En Ego; e a Oração à Beata Virgem Maria. A estes textos no Missal de 1962 se anexavam as indulgências dos papas Pio X, XI e XII, enquanto que alguns textos do Missale Romanum de 2002 foram incluídos também no Enchiridion das Indulgências.

4.2. No Missal de 1962, uma antífona precede ao Benedicite (cf. Dn 3,56-58) e ao Salmo 150. Observando a própria estrutura da Preparação à Missa, o Kyrie eleison e alguns versículos abrem o caminho para algumas orações. A primeira delas reza para que, como os três jovens foram tirados ilesos das chamas, assim possam os servos do Senhor evitar as feridas do pecado. A segunda pede que as obras boas que Deus começou em seus servos possam chegar a seu cumprimento, enquanto que a terceira, que tem um tema semelhante à primeira, é uma oração a São Lorenzo, diácono e mártir, a quem busca vencer o sofrimento. As devoções que o sacerdote pode recitar pro opportunitate possuem expressões semelhantes aos pedidos de proteção em nossa viagem para o céu. Após a oração de São Tomás há outra (alia oratio) e o hino métrico Adoro Te, segue a amada oração do Anima Christi. O Suscipe e o En Ego precedem outra oração, que pede que a Paixão de Cristo seja a força do sacerdote, sua defesa e glória eterna. Antes das orações a São José e ao santo em honra do qual se celebrou a Missa, a Oração à Beata Virgem Maria oferece a Jesus, que foi recebido na Santíssima Eucaristia, à Virgem Mãe, para que Ela possa voltar a oferecer-lhe no supremo ato de adoração (latreia), o culto perfeito, à Santíssima Trindade.

5. Conclusão

O Ordenamento Geral do Missal Romano estabelece: "É por isso de suma importância que a celebração da Missa, ou Ceia do Senhor, esteja ordenada de tal forma que os sagrados ministros e os fiéis, participando nela cada um segundo sua própria ordem e grau, tragam abundância dos frutos pelos quais Cristo institui o Sacrifício eucarístico de seu Corpo e de seu Sangue e o confiou, como memorial de sua Paixão e ressurreição, à Igreja, sua amadíssima Esposa" [7]. A preparação do sacerdote para a Missa e o ato de ação de graças sucessivo se completam mutuamente. Estes nutrem a reverência nos corações e nas mentes dos fiéis que são ajudados a participar com maior intensidade na liturgia celebrada por um sacerdote que se beneficiou da oportunidade de recolhimento. O que anima a preparação prévia promove também a ação de graças sucessiva à Missa. Ambas guiam continuamente a Igreja para e a partir do Sacrifício eucarístico que celebra e faz presente os frutos do mistério pascal até que Cristo volte no fim dos tempos.

--- --- ---

Notas originais em italiano:

1) Pontificale Romanum, «De Ordinatione Episcopi, Presbyterorum et Diaconorum», cap. 2, n. 151: «Munere item sanctificandi in Christo fungéris. Ministério enim tuo sacrifícium spirituále fidélium perficiétur, Christi sacrifício coniúnctum, quod una cum iis per manus tuas super altáre incruénter in celebratióne mysteriórum offerétur. Agnósce ergo quod agis, imitáre quod tracta, quátenus mortis et resurrectiónis Dómini mystérium célebrans, membra tua a vítiis ómnibus mortificáre et in novitáte vitæ ambuláre stúdeas».

2) La dicitura Praeparatio ad Missam stampata in nero è seguita dall'altra: pro opportunitate sacerdotis facienda scritta in rosso, il che qualifica i testi come risorse facoltative che il sacerdote può usare a seconda delle circostanze.

3) «Sacerdos celebraturus Missam [...] saltem Matutino cum Laudibus absoluto».

4) Institutio Generalis de Liturgia Horarum, cap. 1, n. 10.

5) Missale Romanum, editio typica tertia 2002, nn. 1289-1291.

6) Sap 11,24 forma l'introito del Mercoledì delle Ceneri, sia nella forma ordinaria che straordinaria del Rito Romano.

7) Institutio Generalis Missalis Romani, 2002, n. 17.


Fonte: Zenit

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Summorum Pontificum: Un acto de legislación universal que interesa a toda la Iglesia en todo el mundo y no un favor hecho a un individuo o a un grupo



Balance del “Summorum Pontificum” por parte del Prefecto de la Signatura Apostólica

Jueves, 12 ago (RV).- En el marco del tercer aniversario de la publicación del “motu proprio” del Santo Padre sobre la Misa en Rito Romano –el 7 de julio de 2007– la Iglesia en Alemania publicó un “comentario” al “motu proprio” “Summorum Pontificum”, la Carta Apostólica mediante la cual, Benedicto XVI liberalizó –poniendo nuevamente en vigencia– el rito de San Pío V.

El Prefecto de la Signatura Apostólica, Mons. Raymond Leo Burke, escribe en el prefacio de la publicación que la “forma extraordinaria del Rito Romano –es decir de la misa en latín– según el antiguo rito preconciliar es una tarea para toda la Iglesia que no interesa solamente a ciertos grupos porque se trata de un acto de legislación del Santo Padre”.

El Comentario al “motu proprio” “Summorum Pontificum” escrito por Gero P. Weishaupt, sacerdote alemán, latinista y canonista, alude a la celebración de la misa en latín haciendo hincapié sobre todas las cuestiones de fondo a ella relacionadas. “De tal manera, explica Mons. Burke en su introducción, la decisión con la que Benedicto XVI autorizó la celebración de la antigua misa en latín debe ser comprendida como un acto de legislación universal que interesa a toda la Iglesia en todo el mundo y no como un favor hecho a un individuo o a un grupo porque se trata de una ley cuya finalidad es la salvaguardia y promoción de la vida de todo el cuerpo místico de Cristo y la máxima expresión de esta vida, es decir la liturgia Sacra”.

El “motu proprio” del Santo Padre implica a la entera comunidad de la Iglesia y ésta tiene la obligación de preservar la tradición litúrgica y mantener la legítima celebración de ambas formas del rito romano, el precedente al Concilio Vaticano II y el que le siguió.

En efecto, en la carta apostólica de Benedicto XVI en forma de “motu proprio” “Summorum Pontificum” sobre el uso de la liturgia romana anterior a la reforma de 1970, que salía a la luz el 7 de julio de 2007, y cuyos efectos entraron en vigor a partir del 14 de septiembre del mismo año, en la fiesta de la Exaltación de la Cruz; los dos primeros párrafos del texto indican que “Los sumos pontífices hasta nuestros días se preocuparon constantemente porque la Iglesia de Cristo ofreciese a la Divina Majestad un culto digno de alabanza y gloria de Su nombre y del bien de toda su Santa Iglesia”.

“Desde tiempo inmemorable, escribía en su Carta Apostólica Benedicto XVI, como también para el futuro, es necesario mantener el principio según el cual, cada Iglesia particular debe concordar con la Iglesia universal, no solo en cuanto a la doctrina de la fe y a los signos sacramentales, sino también respecto a los usos universalmente aceptados de la ininterrumpida tradición apostólica, que deben observarse no solo para evitar errores, sino también para transmitir la integridad de la fe, para que la ley de la oración de la Iglesia corresponda a su ley de fe”.

A casi tres años de su aplicación, y de las verificaciones sobre el estado de las cosas Mons. Burke, explica algunos temas de fondo que es importante aclarar y que pueden resultar controvertidos:

El Prefecto de la Signatura Apostólica observa que no pertenecen a los derechos fundamentales del bautizado ni el servicio al altar de personas de sexo femenino, ni el uso de los laicos para las lecturas o para la distribución extraordinaria de la comunión. En consecuencia estos desarrollos más recientes no van introducidos en la forma extraordinaria del rito romano con la finalidad de respetar la integridad de la disciplina litúrgica contenida en el Misal Romano de 1962.

En la introducción al comentario al “motu proprio” “Summorum Pontificum”, recientemente publicado en Alemania, Mons. Raymond Leo Burke precisa también un principio más general: la disciplina definida a través de la reforma litúrgica del Concilio Vaticano II, va aplicada al rito romano “solo si tal disciplina toca un derecho de los creyentes que deriva directamente del sacramento del bautismo y sirve a para la salvación de sus almas”. Y precisa que en realidad, ni la presencia femenina ni aquella de los laicos “pertenecen a los derechos fundamentales del bautizado”.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Cegueira plúmbea



O fascismo chauvinista alemão se estabeleceu, entrando pela porta da frente. Hitler manipulou a alma alemã, com recursos de encantamento irresistível. Seu nome estourou nas urnas. Estava tão certo da vitória que não ocultou nenhum de seus tenebrosos pensamentos. Todos conheciam suas pregações imperialistas, seu gosto pelo uso da força, sua arrogância diante dos judeus, sua presunção de superioridade da raça ariana. Um observador, colocado a certa distância, poderia prever a colisão inexorável que aconteceria entre o bem do povo alemão, e o programa foguetório do regime político, que deveria arrostar todas as conquistas civilizatórias. É a história do passarinho encantado, que fica à disposição da cobra que o engole sem escrúpulos.

Não sou daqueles que consideram a Revolução de 31 de março, como um mal absoluto. As intenções foram boas, tendo recebido o firme apoio da opinião pública. Os nobres ideais foram obumbrados, progressivamente, pelo uso abusivo do cerceamento das liberdades. Com o correr do tempo, as lideranças socialistas, em vez de se converterem, entraram na clandestinidade. Mas posteriormente retornaram, entre aplausos, e ocuparam tranquilamente quase todos os escalões da República cripto-socialista. Certíssimos do sucesso, já se tem como garantida a execução de alguns programas antiqüíssimos: a interrupção violenta da gravidez; o enfraquecimento da vida familiar, pelo apoio a outros tipos de “família”; a redução à obediência de veículos de comunicação através de prêmios e castigos; a insegurança dos direitos constitucionais; a subserviência do poder judiciário; a impossibilidade de manifestação religiosa em público; a descaracterização do país de qualquer sinal cristão, depois de termos passado ao povo, durante séculos, os ensinamentos de Cristo...Será que se avizinha o tempo em que precisamos ocultar que somos católicos? A vitória desse programa “moderno” parece ser tão evidente como o pôr do sol antes da noite escura. O nosso veículo tem freio e tem direção. Enxergamos o perigo que se avizinha? “Eis agora o dia da salvação” (2 Cor 6, 2 ). Ainda podemos evitar o grande mal.

Dom Aloísio Roque Oppermann

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DEPOIS DO ENCONTRO SACERDOTAL DE GARANHUNS, ENCONTRO SOBRE MOTU PROPRIO E SANTA MISSA PONTIFICAL NA FORMA EXTRAORDINÁRIA EM BELÉM


A 100 años de “Quam singulari”, el Prefecto de Culto Divino reafirma su actualidad


Ayer, 8 de agosto, se cumplieron exactamente cien años del decreto “Quam singulari” del Papa San Pío X, por el cual se admitía a los niños a la primera Comunión a la edad de 7 años. Con ocasión del centenario de este importante acto pontificio, el Cardenal Prefecto de la Congregación para el Culto Divino y la Disciplina de los Sacramentos, Antonio Cañizares, ha publicado un artículo en L’Osservatore Romano.


Cien años atrás, con el decreto Quam singulari, siguiendo fielmente las enseñanzas de los concilios Lateranense IV y Tridentino, Pío X fijó la primera Comunión y la primera confesión de los niños a la edad del uso de la razón, es decir, en torno a los siete años. Esta disposición implicaba un cambio muy importante en la práctica pastoral y en la concepción habitual de entonces, que por diversas razones habían retrasado este acontecimiento tan fundamental para el hombre.

Con este decreto Pío X, el gran y santo Papa de la piedad y de la participación eucarística, con el deseo de renovación eclesial que inspiró su pontificado, enseñó a toda la Iglesia el sentido, el momento, el valor y la centralidad de la santa Comunión para la vida de todos los bautizados, incluidos los niños. Al mismo tiempo, subrayaba y recordaba a todos el amor y la predilección de Jesús por los niños ya que Él, además de hacerse niño, manifestó su amor hacia ellos con gestos y palabras, al punto de decir: “Si no os hacéis como niños, no entraréis en el Reino de los Cielos”; “dejad que los niños vengan a mí y no se lo impidáis porque el Reino de los Cielos pertenece a quienes son como ellos”. Ellos son siempre amigos muy especiales del Señor.

Con la misma predilección, la misma mirada amorosa y la misma atención y solicitud especial, la Iglesia mira, sigue, cuida y se preocupa de los niños. Por eso, como Madre amorosa, desea que sus hijos pequeños, los primeros en el Reino de los Cielos, participen pronto, con la debida disposición, del don mejor y más grande que Jesús nos ha dejado en su memoria: su Cuerpo y su Sangre, el Pan de la Vida. Gracias a la santa Comunión, Jesús en persona, Hijo único de Dios, entra en la vida de quien lo recibe y hace morada en él.

No existe amor más grande ni regalo más grande. Este es un don de amor que vale más que cualquier otra cosa en la vida de cada hombre. Estar con el Señor; que el Señor esté en nosotros, dentro de nosotros; que nos alimente y nos sacie; nos tome de la mano y nos guíe; que nos vivifique y que nos mantengamos fieles en la comunión y en la amistad con Él: es, sin duda, lo más grande, más gratificante y más alegre que puede suceder. ¿Cómo retrasar, entonces, para los niños, este encuentro con Jesús, visto que son sus mejores amigos, aquellos que son amados de modo especial por Dios Padre, objeto de los cuidados especiales de la Iglesia, la santa Madre?

La primera Comunión de los niños es como el inicio de un camino junto a Jesús, en comunión con Él: el inicio de una amistad destinada a durar y a reforzarse para toda la vida con Él; el inicio de un camino porque con Jesús, unidos sin separarnos, procedemos bien y la vida se convierte en algo bueno y alegre; con Él dentro podemos ser, sin duda, personas mejores. Su presencia entre nosotros y con nosotros es luz, vida y pan en el camino. El encuentro con Jesús es la fuerza que necesitamos para vivir con alegría y esperanza. No podemos, retrasando la primera Comunión, privar a los niños - el alma y el espíritu de los niños – de esta gracia, obra y presencia de Jesús, de este encuentro de amistad con Él, de esta participación singular de Jesús mismo y de este alimento del Cielo para poder madurar y llegar así a la plenitud. Todos, especialmente los niños, tienen necesidad del Pan bajado del Cielo, porque también el alma debe nutrirse y no bastan nuestras conquistas, la ciencia, las técnicas, por más importantes que sean. Tenemos necesidad de Cristo para crecer y madurar en nuestras vidas.

Esto es todavía más importante en los momentos que vivimos y lo es de modo especial para los niños, cuya grandeza, pureza, sencillez, “santidad”, actitud hacia Dios y amor, que los caracterizan, desgraciadamente son, con frecuencia, manipulados y destruidos. Los niños viven inmersos en miles de dificultades, rodeados por un ambiente difícil que no los anima a ser lo que Dios quiere de ellos; muchos son víctimas de la crisis de la familia. En este clima, son todavía más necesarios para ellos el encuentro, la amistad, la unión con Jesús, su presencia y su fuerza. Ellos son, gracias a su alma inmaculada y abierta, aquellos que están mejor dispuestos, sin duda, para este encuentro.

El centenario del decreto Quam singulari es una ocasión providencial para recordar e insistir en tomar la primera Comunión cuando los niños tienen la edad del uso de la razón, que hoy incluso parece haberse anticipado. Por lo tanto, no es recomendable la praxis, que se está introduciendo cada vez más, de elevar la edad de la primera Comunión. Al contrario, es todavía más necesario anticiparla. Frente a todo lo que está ocurriendo con los niños y al ambiente tan adverso en que crecen, no los privemos del don de Dios: es la garantía de su crecimiento como hijos de Dios, generados por los sacramentos de la iniciación cristiana en el seno de la santa Madre Iglesia. La gracia del don de Dios es más poderosa que nuestras obras, y que nuestros planes y programas.

Cuando Pío X anticipó la edad de la primera Comunión, insistió también en la necesidad de una buena formación, de una buena catequesis. Hoy debemos acompañar esta misma anticipación de la edad con una nueva y vigorosa pastoral de iniciación cristiana. Las líneas trazadas por el Catecismo de la Iglesia Católica, por el Directorio general de la catequesis y por el Directorio para Misas con niños, son una guía imprescindible en esta nueva o renovada pastoral de la iniciación cristiana, tan fundamental para el futuro de la Iglesia, la Madre que, con la ayuda de la gracia del Espíritu, genera y hace madurar a sus hijos a través de los sacramentos de iniciación, la catequesis y toda la acción pastoral que la acompaña.

No cerremos, entonces, los oídos a las palabras de Jesús: “Dejad que los niños vengan a mí, no se lo impidáis”. Él quiere estar en ellos y con ellos porque “el reino de Dios pertenece a los niños y a quienes son como ellos”.

Fuente: L’Osservatore Romano
Traducción: La Buhardilla de Jerónimo

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Bento XVI: melhor resposta aos ataques, fidelidade à Palavra de Deus



Pontífice dirige mensagem aos Cavaleiros de Colombo em que agradece apoio


CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 5 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – A resposta mais eficaz aos ataques, “muitas vezes injustos e infundados”, contra a Igreja, é “uma grande fidelidade à Palavra de Deus”, afirma Bento XVI.

O pontífice assim se expressou em uma mensagem enviada aos Cavaleiros de Colombo, que celebraram nesta semana (3 a 5 de agosto), em Washington D.C, sua 128ª Convenção Suprema. O texto foi dirigido pelo cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado, e difundido pela página da Ordem na internet.

Ao saudar os Cavaleiros de Colombo por sua assembleia e pelo “espírito de solidariedade fraterna” que inspirou a fundação da Ordem e “continua a guiar suas múltiplas atividades”, o Papa agradeceu os Cavaleiros pelo “apoio generoso” que lhe têm demonstrado nos últimos meses, “especialmente através de suas orações constantes”.

O Papa “continua profundamente consolado por este testemunho de fidelidade ao Vigário de Cristo em meio à turbulência destes tempos e pede que as orações continuem a ser oferecidas pela unidade da Igreja, a difusão do Evangelho e a conversão dos corações”, afirma o texto assinado pelo cardeal Bertone.

O secretário de Estado vaticano afirma que “o Santo Padre está convencido” de que, “diante dos ataques, muitas vezes injustos e infundados contra a Igreja e seus líderes”, a “resposta mais eficaz é uma grande fidelidade à Palavra de Deus, uma busca mais firme da santidade e um maior compromisso com a caridade na verdade por parte de todos os fiéis”.

“Ele pede que os Cavaleiros perseverem em seu testemunho de fé e caridade, na confiança serena em que, como a Igreja vive este período de purificação, sua luz virá para brilhar ainda mais reluzente perante os homens e mulheres de mente justa e boa vontade.”

“Num tempo em que as normas morais fundamentais, baseadas na verdade e inscritas no coração humano, são cada vez mais questionadas e, muitas vezes, derrubadas pela legislação positiva” – destaca o cardeal Bertone –, o Santo Padre “está agradecido pelos esforços dos Cavaleiros, em colaboração com outros homens e mulheres de boa vontade, em defender a razoabilidade da doutrina moral da Igreja e sua importância para uma boa, justa e duradoura ordem social”.

O Papa faz ainda um agradecimento especial à Ordem e a todos lutam pelo reconhecimento da “santidade da vida humana e da autêntica natureza do casamento”. Reconheceu também “os esforços para promover nos leigos católicos uma maior consciência da necessidade de superar toda separação entre a fé que professam e as decisões diárias que moldam suas vidas como indivíduos e na vida da sociedade como um todo”.

Fonte: Zenit