quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

El documento de aplicación del Motu Proprio existe y no es un paso atrás


Ante los rumores difundidos en algunos medios que indican que el documento para la aplicación del Motu Proprio Summorum Pontificum implicará un paso atrás y diluirá lo expresado en el documento pontificio del año 2007, el vaticanista Paolo Rodari ha publicado esta breve información en su blog, que aquí ofrecemos la traducción de La Buhardilla para la lengua española.

Escriben aquí, aquí y aquí que en el Vaticano están tratando de diluir el decreto de aplicación del Motu proprio Summorum Pontificum.

En resumen, según los blogs arriba citados, el decreto, en lugar de dar un mayor impulso al Motu proprio explicando a los obispos cómo aplicarlo del mejor modo, diría que la liturgia antigua es una concesión hecha sólo a los “tradicionalistas”, en reconocimiento de una “sensibilidad” particular. Escriben también los blogs que los artífices de esta dilución serán monseñor Charles Scicluna, promotor de justicia maltés en la Congregación para la Doctrina de la Fe, y el cardenal Antonio Cañizares Llovera, prefecto de la Congregación para el Culto Divino.

Personalmente hice todas las debidas verificaciones y puedo decir que, según fuentes internas del Vaticano, las noticias dadas aquí arriba “son totalmente privadas de fundamento”. El decreto de aplicación no diluirá nada y ni Scicluna ni Cañizares están trabando en ese sentido.

La Pontificia Comisión Ecclesia Dei, que es actualmente presidida por el prefecto de la Doctrina de la Fe, el cardenal William Joseph Levada, tiene ya listo el texto del decreto, está esperando que el difícil trabajo de las traducciones termine, y espera publicar todo (siempre que las traducciones no sufran retrasos) antes de Pascua.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A nobre simplicidade das vestimentas litúrgicas



Por Uwe Michael Lang
Oficial  da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos
Consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice

ROMA, domingo, 13 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - A tradição bíblica aclama Deus como "o próprio autor da beleza" (Sb 13,3), glorificando-o pela grandeza e pela beleza das obras da criação. O pensamento cristão, com base sobretudo na Sagrada Escritura, mas também a filosofia clássica como auxiliar, desenvolveram o conceito de beleza como uma categoria teológica.

Este ensinamento ressoa na homilia do Papa Bento XVI na Missa de dedicação da igreja da Sagrada Família, em Barcelona (7 de novembro de 2010): "A beleza é também reveladora Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convida à liberdade e arranca do egoísmo". A beleza divina manifesta-se de forma totalmente particular na liturgia sagrada, também através das coisas materiais das quais o homem, feito de alma e corpo, tem necessidade para alcançar as realidades espirituais: o edifício de culto, os ornamentos, paramentos, imagens, música, a própria dignidade das cerimônias.

A propósito disso, deve ser lido o quinto capítulo sobre "A dignidade da celebração litúrgica", na última encíclica do Papa João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia (17 de abril de 2003), que afirma que o próprio Cristo quis um ambiente digno para a Última Ceia, pedindo aos discípulos que a preparassem na casa de um amigo que tinha uma "sala grande e disposta" (Lc 22, 12; cf. Mc 14, 15). A encíclica recorda também a unctio de Betânia, um acontecimento significativo que precedeu a instituição da Eucaristia (cf. Mt 26; Mc 14, Jo 12). Frente ao protesto de Judas, de que a unção com o óleo precioso era um "desperdício" inaceitável, tendo em conta as necessidades dos pobres, Jesus, sem diminuir a obrigação de caridade concreta para com os necessitados, declara seu grande apreço pelo ato da mulher, porque a sua unção antecipa "essa honra de que seu corpo permanecerá digno, mesmo depois da morte, indissoluvelmente ligado ao mistério da sua Pessoa" (Ecclesia de Eucharistia, n. 47). João Paulo II conclui que a Igreja, como a mulher de Betânia, "não temeu ‘desperdiçar', investindo o melhor dos seus recursos para exprimir o seu estupor de adoração diante do dom incomensurável da Eucaristia" (ibid., n. 48). A liturgia exige o melhor das nossas possibilidades, para glorificar Deus Criador e Redentor.

No fundo, o cuidado atento das igrejas e da liturgia deve ser uma expressão de amor ao Senhor. Mesmo em um lugar onde a Igreja não tem grandes recursos materiais, não podemos negligenciar este dever. Já um Papa importante do século XVIII, Bento XIV (1740-1758), em sua encíclica Annus qui (19 de fevereiro de 1749), dedicada principalmente à música sacra, pediu ao seu clero que as igrejas fossem bem conservadas e equipadas com todos os objetos sagrados necessários para a digna celebração da liturgia: "Ressaltamos que não falamos da suntuosidade e da magnificência dos templos sagrados, nem da preciosidade dos ornamentos sagrados, sabendo que nós também não podemos tê-los em todo lugar. Falamos da decência e da limpeza que ninguém está autorizado a negligenciar, sendo a decência e a limpeza compatíveis com a pobreza".

A constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II, pronunciou-se de forma semelhante: "Ao promover e incentivar uma arte verdadeiramente sagrada, busquem mais uma nobre beleza do que o mero luxo. Isso tem que ser aplicado também às vestes sagradas e ornamentos" (Sacrosanctum Concilium, n. 124). Esta passagem se refere ao conceito da "nobre simplicidade", introduzido pela Constituição no n. 34. Este conceito parece originário do arqueólogo e historiador de arte Johann Joachim Winckelmann, alemão (1717-1768), segundo o qual a escultura grega clássica foi caracterizada pela "nobre simplicidade e serena grandeza". No início do século XX, o conhecido liturgista inglês Edmund Bishop (1846-1917) descreveu o "gênio do rito romano" como distinguido pela simplicidade, sobriedade e dignidade (cf. E. Bishop, Liturgica Historica, Clarendon Press, Oxford 1918, pp. 1-19). A esta descrição não falta mérito, mas é preciso estar atentos à sua interpretação: o rito romano é "simples" em comparação com outros ritos históricos, como os orientais, que se distinguem por sua grande complexidade e suntuosidade. Mas a "nobre simplicidade" do rito romano não deve ser confundida com uma mal-entendida "pobreza litúrgica" e com o intelectualismo, que podem levar à ruína a cerimônia, fundamento do culto divino (cf. a contribuição fundamental de São Tomás de Aquino na Summa Theologiae III, q. 64, a. 2; q. 66, a 10; q. 83, a.4).

A partir destas considerações, é evidente que as vestes sagradas devem contribuir "para o decoro da ação sagrada" (Instrução Geral do Missal Romano, n. 335), especialmente "na forma e no material utilizado", mas também, embora de forma mesurada, nos ornamentos (ibid., n. 344). O uso das vestimentas litúrgicas expressa a hermenêutica da continuidade, sem excluir nenhum estilo histórico particular. Bento XVI apresenta um modelo em suas celebrações, quando usa tanto vestes de estilo moderno como, em alguma ocasião solene, as "clássicas", também usadas por seus antecessores. Isto segue o exemplo do escriba, convertido em discípulo do reino dos céus, comparado por Jesus com um chefe de família que tira do seu tesouro nova et vetera (Mt 13,52).

Fonte: Zenit

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Língua da Celebração Litúrgica



Uwe Michael Lang
Oficial da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos
Consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice


A língua não é apenas um instrumento que serve para comunicar fatos, e deve fazê-lo de modo mais simples e eficiente, mas é também o meio para exprimir a nossa mens de um modo que coenvolva toda a pessoa. Consequentemente, a língua é também o meio em que se exprimem os pensamentos e as experiências religiosas.

A língua usada no culto divino, ou melhor, a "língua sacra" não se precipita na glossolalia (cf. 1 Cor 14) ou no silêncio místico, excluindo completamente a comunicação humana, ou pelo menos tentando fazê-lo. Todavia, fica reduzido o elemento da compreensibilidade em favor de outros elementos, em particular o expressivo. Christine Mohrmann, a grande historiadora do latim dos cristãos, afirma que a língua sacra é um modo específico de "organizar" a experiência religiosa. De fato, Mohrmann sustenta que toda forma de crença na realidade sobrenatural, na existência de um ser transcendente, conduz necessariamente à adoção de uma forma de língua sacra no culto, enquanto um laicismo radical leva a descartar qualquer forma de uma tal língua. Neste sentido, o Cardeal Albert Malcolm Ranjith recordou numa entrevista: "O uso de uma língua sacra é tradição em todo o mundo. No Hinduísmo a língua da oração é o Sânscrito, que não está mais em uso. No Budismo se usa o Páli, língua que hoje somente os monges budistas estudam. No Islã se emprega o Árabe do Corão. O uso de uma língua sacra nos ajuda a viver a sensação do além" (La Repubblica, 31 de julho de 2008, p. 42).


O uso de uma língua sacra na celebração litúrgica faz parte daquilo que São Tomás de Aquino na Summa Theologiae chama solemnitas. O Doutor Angélico ensina: "Aquilo que se encontra nos sacramentos por instituição humana não é necessário para a validade do sacramento, mas confere uma certa solenidade, útil nos sacramentos para excitar a devoção e o respeito naqueles que os recebem" (Summa Theologiae III, 64, 2; cf. 83, 4).

A língua sacra, sendo o meio de expressão não somente dos indivíduos, mas de uma comunidade que segue as suas tradições, é conservadora: mantém as formas linguísticas arcaicas com tenacidade. Ademais, são introduzidos nela elementos externos, na medida em que associados a uma antiga tradição religiosa. Um caso paradigmático é o vocabulário bíblico hebraico no latim usado pelos cristãos (amém, aleluia, hosana, etc.), como já observara Santo Agostinho (cf. De doctrina christiana II, 34-35 [11,16]).

Ao longo da história, foi utilizada uma ampla variedade de línguas no culto cristão: o grego na tradição bizantina; as diversas línguas das tradições orientais, como o siríaco, o armeno, o georgiano, o copta e o etiópico; o peleoeslavo; o latim do rito romano e dos outros ritos ocidentais. Em todas estas línguas se encontram formas de estilo que as separam da língua "ordinária", ou melhor, populares. Frequentemente este afastamento é consequência dos desenvolvimentos linguísticos na linguagem comum, que depois não são adotados na língua litúrgica por causa do seu caráter sacro. Todavia, no caso do latim como língua da liturgia romana, um certo afastamento existiu desde o início: os romanos não falavam no estilo do Cânon ou das orações da Missa. Tão logo o grego foi substituído pelo latim na liturgia romana, foi criada como meio de culto uma linguagem fortemente estilizada, que um cristão mediano da Roma tardo antiga teria compreendido não sem dificuldade. Além do mais, o desenvolvimento da latinitas cristã pode ter tornado a liturgia mais acessível às pessoas de Roma ou Milão, mas não necessariamente àqueles cuja língua materna era o gótico, o celta, o ibérico ou o púnico. De qualquer modo, graças ao prestígio da Igreja de Roma e à força unificadora do papado, o latim torna-se a única língua litúrgica e, desse modo, um dos fundamentos da cultura no Ocidente.

A distância entre o latim litúrgico e a língua do povo torna-se maior com o desenvolvimento das culturas e das línguas nacionais na Europa, para não mencionar os territórios de missão. Esta situação não favorecia a participação dos fiéis na liturgia e, por isso, o Concílio Vaticano II quer estender o uso do vernáculo, já introduzido em uma certa medida nos decênios precedentes, na celebração dos sacramentos (Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, art. 36, n. 2). Ao mesmo tempo, o Concílio sublinhou que "o uso da língua latina [...] seja conservado nos ritos latinos" (ibid., art. 36, n. 1; cf. também art. 54). No entanto, os Padres Conciliares não imaginavam que a língua sacra da Igreja ocidental seria totalmente substituída pelo vernáculo. A fragmentação linguística do culto católico avançou tanto que muitos fiéis hoje dificilmente podem recitar juntos um Pater noster, como se pode notar nas reuniões internacionais em Roma ou alhures. Numa época marcada por uma grande mobilidade e globalização, uma língua litúrgica comum poderia servir como vínculo de unidade entre povos e culturas, além do fato de que a liturgia latina é um tesouro espiritual único que alimentou a vida da Igreja por muitos séculos. Mais que qualquer outra língua, o latim contribui para o caráter sacro e estável "que atrai muitos para o antigo uso", como escreve o Santo Padre Bento XVI na sua Carta aos Bispos, em ocasião da publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum (7 de julho de 2007). Com o uso mais amplo da língua latina, escolha perfeitamente legítima, mas pouco usada, "na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI poderá manifestar-se, de modo mais forte do que tem sido frequentemente até agora, aquela sacralidade" (ibid.).

Enfim, é necessário preservar o caráter sacro da língua litúrgica na tradução vernácula, como faz notar com exemplar clareza a Instrução da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos sobre a tradução dos livros litúrgicos Liturgiam authenticam de 2001. Um fruto notável desta instrução é a nova tradução inglesa do Missale Romanum que será introduzida em muitos países anglófonos no curso deste ano.

Fonte: Zenit
Tradução Oblatus

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Teologia Eucarística e o Rito da Missa



Por Pe. Aidan Nichols, OP

De 24 a 28 de agosto de 2009, a Latin Mass Society of Great Britain organizou uma conferência de treinamento na celebração da Missa no Usus Antiquior, para sacerdotes, no All Saints Pastoral Centre, London Colney, Herts. Durante esta conferência, Pe. Nichols proferiu a seguinte palestra que destacou a pluralidade de ritos na Igreja e discutiu sobre os pontos fortes do Rito Dâmaso-Gregoriano, e a contribuição que ele pode dar ao projeto do Papa Bento de restaurar uma vida litúrgica mais autêntica.

Introdução

De dezembro de 1576 a Abril de 1577 os alunos de Douai estudaram o desconhecido (para eles) Rito Romano, sob a direção do Dr. Laurence Webbe, que veio de Roma para ensiná-lo. George Godsalf, ordenado em 20 de dezembro de 1576, deve ter sido o primeiro sacerdote inglês a rezar a Missa de acordo com o Missal reformado. Se Douai teve a Missa Solene, ou se os alunos tiveram idade suficiente para terem participado de tal Missa no reinado de Maria Tudor, eles devem ter lamentado o desaparecimento dos três, cinco ou sete diáconos, bem como os vários subdiáconos, os dois ou mais turiferários, os três cruciferários, o abano de ricos materiais, segurado por um diácono, sobre a cabeça do celebrante durante o Cânon, e, sem dúvida, outras coisas que desconheço. "Plus ça change, plus c’est la même chose" (Quanto mais se muda, mais se é a mesma coisa).

Missa segundo o Uso de Sarum

E então? A diferença entre o Uso de Sarum, a que os alunos ingleses em Douai até então estavam acostumados, e o recém promulgado Rito de Pio V certamente era menor que aquela entre o Rito de Pio V, mesmo com mudanças tais que afetaram os quatrocentos anos seguintes, e o Missal reformado de 1970. Ainda, é bom lembrar que o Usus Antiquior ou, como eu prefiro dizer, fazendo analogia ao Novus Ordo, o Antiquus Ordo, já foi novus uma vez, ainda que estreitamente relacionado aos seus últimos antecedenes medievais, especialmente o Missal dos Franciscanos e da Cúria Romana.
Por que é bom lembrar disso? Por duas razões. A primeira é que, chocante como foi o radicalismo dos reformadores do pós-Vaticano II, não podemos, honestamente falando, dizer que a história da Liturgia Ocidental é uma veste sem costura, sem algum tipo de ruptura. A segunda, para preservar um senso de perspectiva nesses assuntos, precisamos reconhecer que, em geral, a pluralidade de ritos Eucarísticos é, segundo as palavras de Sellars e Yeatman [cf. 1066], uma "Boa Coisa" na Igreja. Tal pluralidade é, em geral, uma boa coisa porque serve para uma melhor manifestação da verdade Católica.

Benefício de uma pluralidade de ritos

Por que digo isso? No que diz respeito ao culto público, nem tudo capaz de iluminar o mistério da Missa pode ser dito em palavras ou executado no ritual de modo igualmente compreensível por todos, em todo lugar e ao mesmo tempo. Em "Senhor do Mundo", de Robert Hugh Benson, Pe. Percy Franklin, o futuro Papa Silvestre III, descreve o abolição de todos os ritos não-latinos na Igreja como uma forma de consolidação eclesial face a uma vasta apostasia que parece ser o prelúdio da vinda do Anticristo. As circunstâncias eram, para dizer o mínimo, incomuns. Mas Benson não dá a sua impressão de como a vida do culto da Igreja ficaria mais pobre se fosse privada, por exemplo, da Liturgia Bizantina. Por "mais pobre", não digo apenas esteticamente, mas mais pobre na compreensão do mistério que ela celebra na Santa Eucaristia.
Para tomar um exemplo aparentemente pequeno: o Rito do Zeon, em que se deita um pouco de água quente ao cálice consagrado, recorda-nos que o Senhor Eucarístico que os fiéis receberão na Comunhão é o Senhor ressuscitado e glorificado cujo sangue é quente por causa da vida superabundante. 

Sacerdote derramando no cálice a água do zéon

Este ponto, assim feito no ritual, não é insignificante. Alguns católicos tradicionalistas, que visualizam a Missa, justamente, como a representação do Calvário através do simbolismo da imolação dada pela consagração separada do pão/Corpo e do vinho/Sangue, parecem não perceber que a Missa não seria a Missa sem a Ressurreição. Em "Mistérios da Cristandade", Matthias Joseph Scheeben, teólogo católico alemão do fim do séc. XIX, escreve, diferentemente: A gloriosa imortalidade do Corpo de Cristo depois de sua Ressurreição, longe de ser um impedimento à continuação de seu Sacrifício, é a própria condição sem a qual o Sacrifício, uma vez consumado, não pode servir como um Sacrifício que deve durar por toda a eternidade. Ou novamente, falando de aprender de outra Liturgia, o que dizer dos méritos da fórmula Bizantina para a administração da Comunhão? Ela diz o seguinte: "O(a) servo(a) de Deus N..., recebe o santo e precioso Corpo e Sangue de nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo, para a remissão de seus pecados e para a vida eterna". Devemos pensar que os Bizantinos, como a Igreja Latina da Idade Média, tinham razão para ampliar a fórmula patrística um tanto pobre "O Corpo de Cristo", "O Sangue de Cristo", à qual os reformadores pós-Conciliares ansiavam fazer-nos voltar, correndo para o que Pio XII, na Mediator Dei, chamou de "arqueologismo".

Testemunho para a fé Eucarística

Existe (em todo caso sou eu que o digo), no melhor sentido da palavra, uma "conspiração" entre as várias Liturgias, uma conspiratio, uma ação combinada do Espírito Santo, para dar-nos um testemunho, tão adequado quanto qualquer testemunho possa ser, do lado de cá do Céu, acerca do que a Eucaristia é e realiza.
Quando ouvimos falar a expressão "a doutrina Eucarística da Igreja", devemos primeiramente, se somos ortodoxos, trazer à mente o conjunto dos ensinamentos do Papa e dos Concílios que responderam a várias crises na história deste Sacramento. Pensa-se nas primitivas controvérsias medievais sobre a Presença Real, subjacente ao ensino do IV Concílio de Latrão sobre a "admirável conversão" do pão e do vinho no Corpo e do Sangue do Senhor, reiterado, face ao Protestantismo nascente, na Sessão XIII do Concílio de Trento, ou a mesma doutrina do Concílio, na Sessão XXII, que esclareceu o ensino católico contra os Reformadores, ou a carta Mysterium Fidei do Papa Paulo VI em 1965, chamando a atenção para a fragilidade das teorias sobre a conversão Eucarística, que apareciam largamente na Holanda.
E ainda a Palavra de Deus transmitida nos fala sobre o Mistério Eucarístico principalmente através da celebração atual deste Mistério no culto da Igreja, onde as Escrituras são atualizadas e a contribuição dos Padres da Igreja é integrada. Este é o "lugar teológico" que Melchior Cano, dominicano do séc. XVI, supostamente o primeiro a escrever um tratado sobre o método teológico, chamou de "praxis Ecclesiæ", a "prática da Igreja". Documentos do Magistério, embora indicadores essenciais para nossa fé, não podem tomar o lugar do testemunho dado pelas próprias Liturgias, para a doutrina da Eucaristia. E por "Liturgias" eu me refiro a todas as Liturgias históricas que foram celebradas em paz e união com a Igreja Católica, cujo guardião de unidade canônica, apostolicamente dado, é a Sé de Roma.

O Novus Ordo está incluído?

Bem, você vê, talvez, a direção que estou tomando. Eu certamente não ia querer excluir a possibilidade de o Novus Ordo desempenhar um papel nesta "conspiração", e que possa oferecer algo para enriquecer a sensibilidade Eucarística dos Católicos. Sabemos que as Orações Eucarísticas II e IV, no Missal de Paulo VI, são exemplos de empréstimos históricos, uma do antigo e muito esquecido livro romano posteriormente conhecido aos acadêmicos como Ordinário da Igreja Egípcia e a outra da Anáfora Síria-Bizantina de São Basílio. A III, todavia, embora inovadora, é, não obstante, um texto profundamente satisfatório, cuja seção que começa com as palavras "Respice, quæsumus, in oblationem Ecclesiæ tuæ" é, eu creio, uma síntese da Missa tanto como sacrifício da Igreja como quanto sacrifício de Cristo melhor que qualquer outra seção similar do Cânon Romano. Que pena os dedos inquietos dos burocratas romanos não terem parado nas quatro formas da Grande Oração em 1970, mas não podiam resistir em acrescentar mais Orações Eucarísticas, cuja inspiração é algo bom para se debater.
Hoje, porém, neste encontro, não viemos louvar ou acusar o Novus Ordo. Nós viemos aclamar o Antiquus Ordo no sentido do Rito de São Pio V. Assim eu devo guardar o restante desta palestra para ele, porém, com algumas olhadas ocasionais para o Oriente. E pelo menos um aspecto do Usus Antiquior a que estarei chamando a atenção é unicamente, em minha mente, um distintivo, porque deixamos algumas coisas escorregarem da celebração no Usus Recentior, para prejuízo nosso.

A Missa de São Pio V: o Sacrifício




Como escrevi num artigo recente no The Catholic Herald (03 de julho de 2009), a razão mais óbvia que temos, em termo de doutrina Eucarística, para olhar para o Rito de São Pio V, é a expressão litúrgica da Missa como Sacrifício. Assumindo que estamos acostumados a rezar o Cânon Romano como a Oração Eucarística I do Missal revisado e que não o consideramos muito complexo para as assembleias modernas ou tão diferente das outras Orações Eucarísticas, a mais notável diferença textual entre a Missa de São Pio V e a Missa de Paulo VI será as orações do Ofertório da primeira com suas reiteradas referências ao Sacrifício sendo oferecido ou prestes a ser oferecido.
Embora desgostado por pessoas com mentalidade caprichosamente alemã, a antecipação da Anáfora, a Oração de Oblação, na preparação e apresentação dos dons é um aspecto frequente da Liturgia histórica. É ainda mais pronunciada no rito Bizantino, onde as cerimônias de abertura da preparação incluem a perfuração do pão separado para a Eucaristia com uma faca em forma de lança, como uma recordação da lança que perfurou o lado do Salvador. Além disso, nesta Liturgia, ao passo em que o pão e o vinho dedicados são transladados para o altar durante a Grande Entrada, o coro canta: "Nós, que misticamente representamos os Querubins e cantamos à vivificante Trindade um hino trinamente santo, afastemos de nós todo pensamento mundano, a fim de acolhermos, o Rei do universo, que vem escoltado por invisíveis milícias angelicais", ainda que o "Rei" "venha" apenas no sentido de que os dons dedicados são agora trazidos a fim de que possam ser oferecidos no Santo Sacrifício, estando para ser convertidos na Presença real dele e recebidos como o fruto do seu Sacrifício. 

Grande Entrada dos dons na Divina Liturgia

Para a mente adoradora de um cristão bizantino, embora sejam ainda imagens do Corpo e do Sangue do Senhor, o Rei misteriosamente vem com eles, já que ele virá neles durante a consagração. O momento litúrgico não é apenas um momento ordinário. Este é um dos argumentos da Dra. Catherine Pickstock do Emmanuel College, em Cambridge, em sua defesa do rito Romano em "Para além do escrito: a consumação litúrgica da filosofia".
Assim, no Ofertório Plano [romano], que é bem mais recheado do que o do Uso Dominicano, ao qual estou particularmente mais familiarizado, o celebrante ora ao Pai para que aceite a immaculatam hostiam (hóstia sem mancha). Ele chama o vinho oferecido de calicem salutaris (cálice da salvação). Naquilo que se pode chamar de ‘epiclese do ofertório’ ele pede ao Espírito santificador (Veni sanctificator) que venha e abençoe os dons sacrificais, "preparados para a glória do vosso nome". E na oração que conclui, Suscipe sancta Trinitas, ele suplica ao triuno Senhor para que faça com que hanc oblationem ("esta oferenda") possa honrar a Mãe de Deus e os santos, bem como seja proveitosa para nossa própria salvação.
No risco de soar como o Msr. Ronald Knox, dirigindo-se a alunas no livro "A Missa em Câmera Lenta", é como se a Igreja não pudesse pela Oração da Oblação e, sobretudo, pela Consagração, momento em que seus dons, que representam a ela mesma, serão transformados no Dom de Cristo, que não simplesmente o representa, mas que o encarna em seu Sacrifício por ela. Assim é a Esposa impaciente pelas Núpcias na Cruz, pelo Mistério Pascal, cujo pensamento é tão fascinante que atrai para si, por antecipação, aquilo que está começando a se realizar. A perca dessas orações debilita o caminho a que deveríamos nos habituar para habitar o tempo Eucarístico e, como digo, também enfraquece o sentido da Missa como Sacrifício.
Coloco em parênteses que a orientação comum do sacerdote e do povo é, usando de modéstia, altamente apropriada à atitude permeada de Sacrifício do Antiquus Ordo, ainda que a Missa  de frente para o povo ou mais ou menos, em altares laterais, não fosse inteiramente desconhecida, historicamente falando. Entre as Liturgias Católicas a orientação comum é normal. Como escreveu um intérprete da Liturgia Etíope (um palestrista do Seminário Maior da Eparquia de Adigrat):


Voltar-se para o Oriente significa que o protagonista da celebração é Cristo, o Sumo Sacerdote, e que a vida que recebemos é a vida Trinitária... Na 'anamnese' da Anáfora dos Apóstolos [uma das Orações Eucarísticas Etíopes] o sacerdote, representando toda a assembleia, diz: 'Nós vos damos graças, Senhor, porque nos tornastes dignos do privilégio de estar de pé diante de vós e de vos oferecer este serviço sacerdotal'. É lógico, portanto, que aquele que recebe esteja voltado para aquele que dá; aquele que pede esteja voltado para aquele a quem se dirige o pedido.


Eu dou o primeiro lugar ao tema do Sacrifício, no que podemos aprender do Rito de São Pio V, porque o conteúdo inteiro da teologia Eucarística Católica é melhor examinado do ponto de vista da Missa como Sacrifício. A Sagrada Comunhão, por exemplo, é melhor apresentada não simplesmente como o encontro pessoal com nosso Senhor no Sacramento, mas um encontro com ele, o Cordeiro imolado e glorificado, que morreu por mim e que abriu um caminho novo e vivo na presença do Pai, no Santo dos Santos. É claro, podemos trazer-lhe todas as nossas aspirações, preocupações, ansiedades no momento da Sagrada Comunhão, mas esses pensamentos sempre deveriam estar relacionados ao centro, que também explica porque é desejável um momento de ação de graças após a Comunhão, e o que é aquilo pelo que podemos dar graças semanalmente ou até diariamente. Tenho inveja dos galeses, pela maneira como sua língua chama a Missa, ou como entendi: "Yr Offeren" ("A Oblação").

A Missa de Pio V: as ‘Apologias’


Outro ponto a que eu gostaria de chamar atenção, relevante para os padres, é o papel das assim chamadas ‘Apologias’ no Rito de São Pio V. As ‘Apologias’ são o nome que os historiadores litúrgicos dão para as orações semi-secretas, adicionadas quando o Rito Romano chegou ao norte dos Alpes, no Reino dos Francos, nas quais o sacerdote expressa sua própria indignidade e, provavelmente também, de sua assembleia quando vem para a celebração desses ritos. Apesar de três destas “Apologias” terem sobrevivido na recente reforma litúrgica – antes da Comunhão, onde há a escolha de duas, e nas abluções onde há uma – elas são mais persistentes no rito mais antigo, notavelmente nas orações ao pé do altar; no momento de subir ao altar, na oração “Aufer a nobis”; novamente, ao se inclinar diante do altar para o beijar depois de dizer a oração; nas orações do ofertório, e nas duas orações combinadas antes da Comunhão do sacerdote e a oração seguinte, “Corpus tuum”, omitida no Novus Ordo, nas abluções. Dado o perigo de uma excessiva familiaridade com este sacramento, o qual alguns de nós somos obrigados a celebrar diariamente, sendo que todos somos aconselhados a celebrar diariamente, e a possibilidade sempre presente, daí, de banalização e trivialização, eu acho que deveríamos encontrar um auxílio nessas orações deveras salutares.
Isto pode parecer dar vazão a uma consideração puramente  pragmática ou, melhor, pastoral, mais do que a algo que tenha a ver com teologia dogmática. Mas as 'Apologias' procuram trazer de volta nossa real e sobrenatural situação na Liturgia Eucarística. Elas o fazem enfatizando que o contraste entre o pecado e a graça jamais pode ser expresso de uma maneira bem viva. No Rito Etíope, a resposta do povo ao convite do diácono para oferecer o ósculo da paz - possivelmente, em nossa moderna experiência litúrgica no Ocidente, o momento mais 'horizontal’ ou mesmo secular que conhecemos na Igreja – é: “Ó Cristo, nosso Deus, tornai-nos dignos de nos saudarmos com um ósculo santo, e participarmos sem condenação do vosso dom sagrado, imortal e celeste...” Isto é um equivalente das 'Apologias' sacerdotais do Usus Antiquior. No ósculo, como ainda mais na Sagrada Comunhão, temos que tomar cuidado ao sermos humanos, humanos demais, mais do que se estivéssemos vendo tudo sob a perspectiva da Redenção. Obviamente, é pelo ósculo moderno ocidental ser experimentado como uma saída desta perspectiva e, assim, tornando-se um desincentivo à preparação para a Sagrada Comunhão, que um recente Sínodo dos Bispos pediu ao Papa Bento para refletir sobre mudá-lo do lugar em que tem permanecido em Roma por cerca de 1500 anos: desde os ritos medievais, o Rito de São Pio V e o Novus Ordo.

Forma tradicional de oferecer a paz no Rito Romano

O problema com o ósculo é, contudo, seu gesto e não o seu local. A beleza do local romano tradicional é o que permite com que seja aparente que a paz irradia da Presença sobre o altar, algo especialmente claro no Uso Dominicano, onde o celebrante beija o cálice antes de declarar a paz, mostrando assim de onde vem a paz. Peter de Troyes, teólogo do séc. XII, diz que o fruto "verdadeiro, próprio e sacramental" corpo de Cristo na Eucaristia é a "caro mystica" (a "carne mística"), de uma Igreja que se torna um corpo social por este sacramento, capaz de realizá-lo em seu poder de criar a paz e a concórdia sobrenaturais.

A Missa de São Pio V: reverência



A terceira coisa que me parece mais óbvia é quão oportunas são, para a doutrina da Presença Real, suas expressões de reverência. Agora, se estávamos procurando uma Liturgia histórica que é forte no tema teológico da Eucaristia como fundamento da comunhão da Igreja, ou o tema doutrinal da Eucaristia como antegosto da Era vindoura, não devemos olhar nesta direção. Devemos preferir olhar, ao invés, para o Oriente. A Constituição sobre a Liturgia, do Concílio Vaticano II, cujas provisões práticas dizem respeito exclusivamente à Missa do Rito Romano, teve um preâmbulo teórico que trata da Eucaristia em todas as Liturgias da Igreja, e talvez seja por isso que a Sacrosanctum Concilium tenha sido mais vigorosa na dimensão escatológica do culto do que a Mediator Dei. Mas para percepção da Presença, bem como do Sacrifício Eucarístico, é a Missa de São Pio V a que me voltaria.
Não estou pensando apenas na linguagem consistentemente aumentada com que se fala das oblatas, mesmo, como vimos, durante o rito do Ofertório. É também uma questão de um vocabulário de gestos. Os múltiplos sinais da Cruz sobre a Hóstia e o Cálice, quer antes da consagração para os santificar, quer depois, indicando sua santidade (se feitos com dignidade e não do jeito que levou os visitantes Vitorianos a pensarem que os padres tinham problemas com moscas nas igrejas italianas), são eles mesmos uma lição. O mesmo se poderia dizer das repetidas genuflexões e, de modo semelhantes, das rubricas relacionadas ao cuidado que se deve ter com as partículas da Hóstia (o que deveríamos observar sem, contudo, cair em escrúpulos neste assunto). Estes gestos de reverência pontuando o Cânon e, especialmente, acompanhando as palavras da consagração, "construiu", como disse Dom Cassian Folsom, "um muro de proteção ao redor deste momento sagrado da Missa e assim reforçou a teologia Eucarística Católica". Foi antropologicamente ingênuo pensar que sua retirada não teria efeito algum nas atitudes do povo ou mesmo do clero.
Isto diz respeito à realização do Sacramento, porém também há a questão da sua recepção. O modo de receber a Comunhão neste rito é uma magnífica expressão da teologia Eucarística, especialmente se a toalha da mesa da comunhão é também usada para cobrir as mãos e para indicar que é um alimento sagrado, este do qual nos aproximamos. O altar é um sepulcro para o Cristo morto e um trono para o Salvador ressurgido, mas é também uma mesa da qual a mesa da comunhão é uma extensão.
Nós certamente podemos aprender da Missa mais antiga como ter uma recepção mais reverente no rito reformado. Se não é possível ajoelhar-se para a Comunhão, então deveríamos introduzir o gesto anterior de reverência, o qual pedem os documentos oficiais. Se a Comunhão direto na língua não é possível, deveríamos explicar ao povo que, quando, na Igreja Antiga, a Comunhão era recebida na mão, sempre o era na mão direita, a mão da dignidade, que era tratada como uma espécie de patena para a Comunhão, da qual a hóstia era levada diretamente para a boca, algo que pode fácil e adequadamente ser feito, se ao mesmo tempo se faz o que Fortescue e O’Connell chamam de "uma inclinação moderada". Isto seria aprendido do espírito do Antiquus Ordo, embora não de sua letra, mas ao menos seria melhor do que nada.
Eu gostaria de saber por quais razões o cálice era administrado aos fiéis neste rito, pelo fim do séc. XVI e começo do séc. XVII, em grandes áreas da Europa central. É boa teologia dizer que, enquanto nada se acrescenta à perfeição do efeito sacramental para o comungante quando o cálice é oferecido, algo se ganha em termos de perfeição do sinal. As situações previstas para a administração do cálice na Sacrosanctum Concilium, tais como a Missa da profissão solene de um monge ou a Missa seguindo o batismo de um catecúmeno, poderiam provavelmente se acomodar muito facilmente à Missa de São Pio V. Não deve ser muito conhecido que de 1564 em diante os Papas permitiram a vários metropolitas no Sacro Império Romano a dar licença para a administração do cálice para todos os fiéis. Isto continuou em alguns lugares por cerca de sessenta anos, tão obviamente como um ato ritual teve parte na Missa de São Pio V. Evidentemente, não se trata de algo requerido pelo rito, mas também não se pode considerar completamente alheio a ele, historicamente falando. O ministro na Missa Solene deveria ser, presume-se, o diácono e, de outro modo, o celebrante. O equivalente no Novus Ordo seria a administração pelo sacerdote, o diácono ou um acólito instituído, adequadamente vestido. Dado que o Cristo inteiro é recebido sub specie panis, não me é claro como pode ser tratado da maneira correta o caso dos ministros extraordinários.
Espero que essas ruminações desconexas e fora do lugar sejam possivelmente de proveito, na linha do desejo do Papa Bento de recuperação de uma vida litúrgica mais autêntica pela exploração simultânea (no melhor sentido da palavra) das variadas riquezas litúrgicas da Igreja. Nós podemos fazer algo pelas Missas paroquiais ordinárias aprendendo do espírito do rito mais antigo, até que tenhamos uma reforma mais adequada, integrando o melhor do Ocidente pré-moderno bem como, sem dúvida, tomando algo mais daqueles empréstimos esporádicos do Oriente, o que tem sido uma característica da história litúrgica do Catolicismo Ocidental, já que estamos impedidos de fazer tanto quanto podemos desejar.

[Reimpresso de Mass of Ages, revista quinzenal da Latin Mass Society of Great Britain, n. 162/Nov. 2009; para mais informações sobre a The Latin Mass Society, visite http://www.latin-mass-society.org/]

Fonte: ARS
Tradução: Luís Augusto - membro da ARS

Reforma de Bento XVI: Novo "motu proprio" sobre a Congregação para o Culto Divino


Será publicado nas próximas semanas um documento de Bento XVI que reorganiza as competências da Congregação para o Culto Divino, confiando-lhe a função de promover uma liturgia mais fiel às intenções originárias do Concílio Vaticano II, com menos espaços para mudanças arbitrárias e a fim de recuperar uma dimensão de maior sacralidade.

O documento, que terá a forma de um motu proprio, é fruto de uma longa gestação - foi revisto pelo Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos e pelos ofícios da Secretaria de Estado - e é motivado principalmente pela transferência de competência sobre causas matrimoniais para a Rota Romana. Trata-se das chamadas causas do "rato mas não consumado", isto é, que dizem respeito ao matrimônio realizado na igreja mas não consumado pela falta de união carnal dos dois esposos. São cerca de quinhentos casos por ano e dizem respeito sobretudo a alguns países asiáticos onde ainda existem os matrimônios combinados com mocinhas em idade muito tenra, mas também a países ocidentais para aqueles casos de impotência psicológica para cumprir o ato conjugal.

Perdendo esta seção, que passará à Rota, a Congregação para o Culto Divino, de fato, não se ocupará mais dos sacramentos e manterá apenas a competência em matéria litúrgica. Segundo algumas autorizadas indiscrições, uma passagem do motu proprio de Bento XVI poderia citar explicitamente aquele "novo movimento litúrgico" do qual falou recentemente o Cardeal Antonio Cañizares Llovera, intervindo durante o consistório de novembro passado.

Ao Giornale, em uma entrevista publicada nas véspera do Natal passado, Cañizares havia dito: "A reforma litúrgica foi realizada com muita pressa. Havia ótimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação... A renovação litúrgica foi vista como uma pesquisa de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade, a palavra mágica de então". O cardeal, que não era parcial ao falar de "reforma da reforma", havia acrescentado: "O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja", para pôr fim a "deformações arbitrárias" e ao processo de "secularização que desafortunadamente atinge até o íntimo da Igreja".

É sabido que Ratzinger tenha desejado introduzir nas liturgias papais gestos significativos e exemplares: a cruz no centro do altar, a comunhão de joelhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio. Sabe-se quanto considera a beleza na arte sacra e quanto considera importante promover a adoração eucarística. A Congregação para o Culto Divino - que alguns gostariam de rebatizar como da sagrada liturgia ou da divina liturgia - deverá pois ocupar deste novo movimento litúrgico, inclusive com a inauguração de uma nova seção do dicastério dedicada à arte e à música sacra.

Tradução: Oblatus

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Card. Joseph Ratinger y el encuentro de Asís

¿Se puede rezar con creyentes de otras religiones? Responde Joseph Ratzinger

 Continuando con la temática de los encuentros de Asís, presentamos la traducción de amplios extractos de un interesante texto, escrito en el año 2003 por el cardenal Joseph Ratzinger, sobre la posibilidad y los límites de la oración multirreligiosa e interreligiosa.

En la época del diálogo y del encuentro de las religiones ha surgido inevitablemente el problema de si se puede rezar juntos unos con otros. Al respecto, hoy se distingue entre oración multirreligiosa e interreligiosa. El modelo para la oración multirreligiosa es ofrecido por las dos jornadas mundiales de oración por la paz, en 1986 y en 2002, en Asís. Miembros de diversas religiones se reúnen. Común es la angustia y el sufrimiento por las miserias del mundo y por su falta de paz, común es el anhelo de la ayuda de lo alto contra las fuerzas del mal para que puedan entrar en el mundo la paz y la justicia. […] Sin embargo, las personas reunidas saben también que su modo de entender lo “divino” y, por lo tanto, su manera de dirigirse, son tan diversos que una plegaria común sería una ficción, no estaría en la verdad. Ellos se reúnen para dar una señal del común anhelo, pero rezan – aunque al mismo tiempo – en lugares separados, cada uno según su propio modo. […]

En referencia a Asís – tanto en 1986 como en el 2002 – se nos ha preguntado repetidamente y en términos muy serios si esto es legítimo. La mayor parte de la gente, ¿no pensará que se finge una comunidad que en realidad no existe? ¿No se favorece de este modo el relativismo, la opinión de que en el fondo son sólo diferencias secundarias las que se interponen entre las “religiones”? ¿No se debilita así la seriedad de la fe, no se aleja ulteriormente a Dios de nosotros, no se consolida nuestra condición de abandono? No se pueden dejar de lado con ligereza tales interrogantes. Los peligros son innegables, y no se puede negar que Asís, particularmente en 1986, ha sido interpretado por muchos de modo errado. Sin embargo, sería también equivocado rechazar en bloque y de forma incondicional la oración multirreligiosa así como la hemos descrito. A mí me parece correcto vincularla a condiciones que correspondan a las exigencias intrínsecas de la verdad de la responsabilidad frente a algo tan grande como es la imploración dirigida a Dios frente a todo el mundo. Identifico dos:

1. Tal oración multirreligiosa no puede ser la norma de la vida religiosa sino que debe permanecer sólo como un signo en situaciones extraordinarias, en las que, por así decir, se eleve un grito común de angustia que debería sacudir los corazones de los hombres y, al mismo tiempo, sacudir el corazón de Dios.

2. Un acontecimiento así lleva casi necesariamente a interpretaciones equivocadas, a la indiferencia respecto al contenido a creer o a no creer y de tal modo a la disolución de la fe real. Por esta razón, acontecimientos del género deben tener un carácter excepcional, y por eso es de máxima importancia aclarar cuidadosamente en qué consisten. Esta explicación, de la que debe resultar claramente que no existen las “religiones” en general, que no existe una común idea de Dios y una común fe en Él, que la diferencia no concierne únicamente al ámbito de las imágenes y de las formas conceptuales mutables sino a las mismas opciones últimas – esta clarificación es importante, no sólo para los participantes del evento, sino para todos aquellos que son testigos del evento o son informados del mismo. El evento debe presentarse en sí mismo y frente al mundo de tal modo claro que no se convierta en una demostración de relativismo, porque se privaría por sí solo de su sentido.

Mientras en la oración multirreligiosa se reza en el mismo contexto pero en forma separada, la oración interreligiosa significa un rezar juntos de personas o grupos de diversa pertenencia religiosa. ¿Es posible hacer esto en toda verdad y honestidad? Lo dudo. De todos modos, deben ser garantizadas tres condiciones elementales, sin las cuales tal oración se convertiría en la negación de la fe:

1. Se puede orar juntos sólo si subsiste una unanimidad sobre quién o qué es Dios y, por lo tanto, si hay unanimidad de principio sobre qué es rezar: un proceso dialógico en el que yo hablo a un Dios que es capaz de escuchar y atender. En otras palabras: la oración común presupone que el destinatario, y por lo tanto también el acto interior dirigido a Él, sean concebidos, en línea de principio, del mismo modo. Como en el caso de Abraham y Melquisedec, de Job y de Jonás, debe ser claro que se habla con el Dios único que está por sobre los dioses, con el Creador del cielo y de la tierra, con mi Creador. Debe ser claro, por tanto, que Dios es “persona”, es decir, que puede conocer y amar; que puede escucharme y responderme; que Él es bueno y es el criterio del bien, y que el mal no forma parte de Él. Cualquier mezcla entre la concepción personal y la impersonal de Dios, entre Dios y los dioses, debe ser excluida. El primer mandamiento vale también en la eventual oración interreligiosa. […]

2. Sobre la base del concepto de Dios, debe subsistir también una concepción fundamentalmente idéntica sobre lo que es digno de oración y sobre lo que puede volverse contenido de oración. Yo considero los pedidos del Padrenuestro el criterio de lo que nos está permitido implorar a Dios, para orar de un modo digno de Él. En ellos se ve quién y cómo es Dios, y quiénes somos nosotros. Ellos purifican nuestra voluntad y hacen ver con qué tipo de voluntad estamos caminando hacia Dios, y qué género de deseos nos alejan de Él, nos pondría contra Él. Pedidos que fuesen en dirección contraria a los pedidos del Padrenuestro no pueden ser para un cristiano objeto de oración interreligiosa, y de ningún tipo de oración.

3. El evento debe desarrollarse en su conjunto de tal modo que la falsa interpretación relativista de fe y oración no encuentre ningún punto de apoyo. Este criterio no concierne sólo al que es cristiano, que no debería ser inducido a error, sino en la misma medida al que no es cristiano, el cual no debería tener la impresión de la intercambiabilidad de las “religiones” y de que la profesión fundamental de la fe cristiana es de importancia secundaria y, por lo tanto, reemplazable. Para evitar este error es necesario también que la fe de los cristianos en la unicidad de Dios y en Jesucristo, el Redentor de todos los hombres, no sea ofuscada frente a quien no es cristiano. […]

La participación en la oración multirreligiosa no puede poner en discusión nuestro compromiso por el anuncio de Cristo a todos los hombres. Si quien no es cristiano pudiese o tuviese que extraer, de la participación de un cristiano, una relativización de la fe en Jesucristo, el único Redentor de todos, entonces tal participación no debería tener lugar. De hecho, en este caso, indicaría la dirección errada, orientaría hacia atrás y no hacia adelante en la historia de los caminos de Dios.

Fuente: Joseph Ratzinger; “Fe, verità, tolleranza. Il cristianesimo e le religioni del mondo”, Cantagalli, Siena, 2003.


El encuentro de Asís del 2002, según el testimonio de Joseph Ratzinger

Presentamos la traducción de la reflexión, publicada en la revista 30Giorni en febrero de 2002, que el entonces cardenal Joseph Ratzinger,  Prefecto de la Congregación para la Doctrina de la Fe, escribió luego de haber participado, el 24 de enero de ese año, en Asís, de la Jornada de oración por la paz en el mundo convocada por el Papa Juan Pablo II.

Cuando el jueves 24 de enero, bajo un cielo cargado de lluvia, se movió el tren que debía conducir a Asís a los representantes de un gran número de Iglesias cristianas y comunidades eclesiales junto a los representantes de muchas religiones mundiales, para testimoniar y rezar por la paz, este tren me pareció un símbolo de nuestra peregrinación en la historia. ¿No somos, de hecho, tal vez todos pasajeros de un mismo tren? El hecho de que el tren haya elegido como su destino la paz y la justicia, la reconciliación de los pueblos y de las religiones, ¿no es tal vez una gran ambición y, al mismo tiempo, una espléndida señal de esperanza? En todos lados, pasando por las estaciones, acudió una gran multitud para saludar a los peregrinos de la paz. En las calles de Asís y en la gran tienda, lugar del testimonio común, fuimos nuevamente rodeados por el entusiasmo y por la alegría llena de gratitud, en particular de un numeroso grupo de jóvenes. El saludo de la gente estaba dirigido principalmente al hombre anciano vestido de blanco que estaba en el tren. Hombres y mujeres, que en la vida cotidiana con demasiada frecuencia se enfrentan unos a otros con hostilidad y parecen divididos por barreras insuperables, saludaban al Papa, que, con la fuerza de su personalidad, la profundidad de su fe, la pasión de ella deriva para la paz y la reconciliación, ha casi logrado lo imposible desde el carisma de su oficio: convocar juntos, en una peregrinación por la paz, a representantes de la cristiandad dividida y representantes de diversas religiones.

Pero el aplauso, dirigido sobre todo al Papa, expresaba también un consenso espontáneo para todos aquellos que con él buscaban la paz y la justicia, y era una señal del profundo deseo de paz que sienten los individuos frente a las devastaciones que nos rodean, provocadas por el odio y por la violencia. Aunque a veces el odio parece invencible y se multiplica sin pausa el espiral de la violencia, aquí, por un momento, se percibió la presencia de la fuerza de Dios, de la fuerza de la paz. Me vienen a la mente las palabras del salmo: “Con mi Dios escalaré los muros” (Sal. 18, 30). Dios no nos pone unos contra otros sino que, en cambio, Él, que es Uno, que es el Padre de todos, nos ha ayudado, al menos por un momento, a escalar los muros que nos separan, haciéndonos reconocer que Él es la paz y que no podemos estar cerca de Dios si estamos lejos de la paz.

En su discurso, el Papa citó otra piedra angular de la Biblia, la frase de la Carta a los Efesios: “Cristo es nuestra paz. Él hizo de los dos pueblos uno solo, derribando el muro de separación, la enemistad” (Ef. 2, 14). Paz y justicia son en el Nuevo Testamento nombres de Cristo (para “Cristo, nuestra justicia”, ver por ejemplo 1Cor 1, 30). Como cristianos no debemos esconder esta convicción: por parte del Papa y del Patriarca ecuménico la confesión de Cristo, nuestra paz, ha sido clara y solemne. Pero precisamente por esta razón hay algo que une más allá de las fronteras: la peregrinación por la paz y la justicia. Las palabras que un cristiano debe decir a aquel que se pone en camino hacia tales metas son las mismas usadas por el Señor en la respuesta al escriba que había reconocido en el doble mandamiento que exhorta a amar a Dios y al prójimo la síntesis del mensaje veterotestamentario: “Tú no estás lejos del reino de Dios” (Mc. 12, 34).

Para una comprensión del evento de Asís, me parece importante considerar que no se ha tratado de una auto-representación de religiones que serían intercambiables entre ellas. No se trató de afirmar una igualdad de las religiones, que no existe. Asís ha sido, más bien, la expresión de un camino, de una búsqueda, de la peregrinación por la paz que es tal sólo si va unida a la justicia. De hecho, allí donde falta la justicia, donde a los individuos se les niega su derecho, la ausencia de guerra puede ser sólo un velo detrás del cual se esconden injusticia y opresión.

Con su testimonio por la paz, con su compromiso por la paz en la justicia, los representantes de las religiones han emprendido, en el límite de sus posibilidades, un camino que debe ser para todos un camino de purificación. Esto vale también para nosotros, los cristianos. Hemos llegado realmente a Cristo sólo si hemos llegado a su paz y a su justicia. Asís, la ciudad de san Francisco, puede ser la mejor intérprete de este pensamiento. También antes de su conversión Francisco era cristiano, así como lo eran sus conciudadanos. Y también el victorioso ejército de Perugia, que lo envió prisionero y derrotado a la cárcel, estaba formado por cristianos. Fue sólo entonces, derrotado, prisionero, sufriente, que comenzó a pensar en el cristianismo de un modo nuevo. Y sólo después de esta experiencia le fue posible escuchar y comprender la voz del Crucificado que le habló en la pequeña iglesia en ruinas de san Damián, la cual, por eso, se convirtió en la imagen misma de la Iglesia de su época, profundamente dañada y en decadencia. Sólo entonces vio cómo la desnudez del Crucificado, su pobreza y su humillación extremas, estaban en contraste con el lujo y la violencia que antes le parecían normales. Y sólo entonces conoció verdaderamente a Cristo y entendió también que las cruzadas no eran la mejor manera de defender los derechos de los cristianos en Tierra Santa sino que, más bien, era necesario tomar a la letra el mensaje de la imitación del Crucificado.

De este hombre, de Francisco, que respondió plenamente a la llamada de Cristo crucificado, emana todavía hoy el esplendor de una paz que convenció al sultán y que puede abatir realmente los muros. Si nosotros, como cristianos, emprendemos el camino hacia la paz siguiendo el ejemplo de san Francisco, no debemos temer perder nuestra identidad: es precisamente entonces que la encontramos. Y si otros se unen a nosotros en la búsqueda de la paz y de la justicia, ni ellos ni nosotros debemos temer que la verdad pueda ser pisoteada por bellas frases hechas. No, si nosotros nos dirigimos seriamente hacia la paz, entonces estamos en el camino correcto porque estamos en el camino del Dios de la paz (Rom. 15, 32), cuyo rostro se ha hecho visible a nosotros, cristianos, por la fe en Cristo.

Fuente: 30Giorni
Traducción: La Buhardilla de Jerónimo

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Papa em ordenação de cinco novos bispos: O ser intrépido, ter a coragem de se opor às correntes do momento, pertence de modo essencial à tarefa do Pastor


Bishops and cardinals attend the holy mass and rite of Episcopal ordination lead by Pope Benedict XVI at the St. Peter's basilica at the Vatican on February 5, 2011.


Cidade do Vaticano, 05 fev (RV) -O Papa Bento XVI celebrou a Santa Missa na manhã deste sábado na Basílica de São Pedro durante a qual ordenou cinco novos bispo que exercerão seu ministério na Cúria Romana e na Representações Pontifícias. São eles: Dom Savio Hon Tai-Fai, chinês, 59 anos, salesiano, Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos; Dom Marcelo Bartolucci, italiano, 66 anos, Secretário da Congregação das Causas dos Santos; Dom Celso Morga Iruzibieta, espanhol, 63 anos, Secretário da Congregação para o Clero; António Guido Filipazzi, italiano, 47 anos, Núncio Apostólico; e Edgar Peña Parra, venezuelano, 50 anos, Núncio Apostólico.

Na sua homilia Bento XVI recordou o trecho do Atos dos Apóstolos sobre a comunidade primitiva de Jerusalém, tema da recente Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O Papa sublinhou alguns aspectos da missão episcopal, observando que “o Pastor não deve ser um bambu de um pântano que se inclina conforme o vento sopra, mas um servo do espírito do seu tempo”...

“O ser intrépido, ter a coragem de se opor às correntes do momento, pertence de modo essencial à tarefa do Pastor. Não deve ser um bambu de pântano, mas sim – segundo a imagem do Salmo 1 – ser como uma árvore que tem raízes profundas, nas quais permanece firme e bem fundamentado”. “Isso – precisou o Papa – não tem nada que ver com a rigidez ou a inflexibilidade. Só onde existe estabilidade existe também crescimento”.

Em seguida recordando o cardeal Newman, com as suas três “conversões”. Ele dizia que “viver é transformar-se”. Mas – insistiu Bento XVI – “as suas três conversões e as transformações correspondentes constituem, contudo, um único caminho coerente: o caminho da obediência em direção à verdade, em direção a Deus; o caminho da verdadeira continuidade que precisamente assim faz progredir”.

“A fé tem um conteúdo concreto” – sublinhou depois o Papa, comentando a expressão “perseverar no ensinamento dos Apóstolos”. “A fé não é uma espiritualidade indeterminada, uma sensação indefinível pela transcendência. Deus agiu e falou fez realmente algo. Podemos contar sobre a estabilidade da sua Palavra”. “Estando em comunhão com os Apóstolos, permanecendo na sua fé, nós próprios estamos em contato com o Deus vivo”.

“É para este objetivo - continuou o Papa - que serve o ministério dos Bispos: que não se interrompa esta corrente, esta sucessão da comunhão”. É esta a essência da Sucessão apostólica: conservar a comunhão com aqueles que encontraram o Senhor de modo visível e tangível, mantendo assim aberto o Céu, a presença de Deus no meio de nós. “Só mediante a comunhão com os Sucessores dos Apóstolos estamos também em contato com o Deus encarnado”. Vale também o contrário – observou o Papa: “só graças à comunhão com Deus, só graças à comunhão com Jesus Cristo, se mantém unida esta corrente de testemunhas”.

“Nunca se é bispo sozinho, diz o Vaticano II, mas sempre só no colégio dos Bispos. E isto não se pode confinar no tempo da própria geração. À colegialidade pertence o entrelaçar de todas as gerações, a Igreja viva de todos os tempos. Vocês queridos irmão, têm a missão de conservar esta comunhão católica, acrescentou o Papa.

Na sua homilia Bento XVI comentou ainda a “fração do pão”, que caracteriza a comunidade inicial de Jerusalém, recordando que “a santa Eucaristia é o centro da Igreja e deve ser o centro do nosso ser cristãos e da nossa vida sacerdotal”.

“A dimensão social, a partilha não é um apêndice moral que se acrescenta à Eucaristia, mas é parte dela”. “A fé se exprime sempre no amor e na justiça de uns para com os outros e que a nossa praxis social se inspire na fé; e que a fé seja vivida no amor, destacou Bento XVI”. (SP)



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Catequese do Papa: perfeição cristã segundo Santa Teresa de Ávila



CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

Queridos irmãos e irmãs:

Ao longo das catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade Média, pude falar sobre alguns santos e santas que foram proclamados Doutores da Igreja por sua eminente doutrina. Hoje, eu gostaria de começar com uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja.

E iniciamos com uma santa que representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos: Santa Teresa de Jesus. Ela nasceu em Ávila, Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Em sua autobiografia, ela menciona alguns detalhes da sua infância: o nascimento "de pais virtuosos e tementes a Deus", em uma grande família, com nove irmãos e três irmãs. Ainda jovem, com pelo menos 9 anos, leu a vida dos mártires, que inspiram nela o desejo de martírio, tanto que chegou a improvisar uma breve fuga de casa para morrer como mártir e ir para o céu (cf. Vida 1, 4): "Eu quero ver Deus", disse a pequena aos seus pais. Alguns anos mais tarde, Teresa falou de suas leituras da infância e afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: por um lado, que "tudo o que pertence a este mundo passa"; por outro, que só Deus é para "sempre, sempre, sempre", tema que recupera em seu famoso poema: "Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem a Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!". Ficando órfã aos 12 anos, pediu à Virgem Santíssima que fosse sua mãe (cf. Vida 1,7).

Se, na adolescência, a leitura de livros profanos a levou às distrações da vida mundana, a experiência como aluna das freiras agostinianas de Santa Maria das Graças, de Ávila, e a leitura de livros espirituais, em sua maioria clássicos da espiritualidade franciscana, ensinaram-lhe o recolhimento e a oração. Aos 20 anos de idade, entrou para o convento carmelita da Encarnação, sempre em Ávila. Três anos depois, ela ficou gravemente doente, tanto que permaneceu por quatro dias em coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Também na luta contra suas próprias doenças, a santa vê o combate contra as fraquezas e resistências ao chamado de Deus. Escreve: "Eu desejava viver porque compreendia bem que não estava vivendo, mas estava lutando com uma sombra de morte, e não tinha ninguém para me dar vida, e nem eu poderia tomá-la, e Aquele que podia dá-la a mim, estava certo em não me socorrer, dado que tantas vezes me voltei contra Ele, e eu o havia abandonado" (Vida 8, 2). Em 1543, ela perdeu a proximidade da sua família: o pai morre e todos os seus irmãos, um após o outro, migram para a América. Na Quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa chega o topo de sua luta contra suas próprias fraquezas. A descoberta fortuita de "um Cristo muito ferido" marcou profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A santa, que naquele momento sente profunda consonância com o Santo Agostinho das "Confissões", descreve assim a jornada decisiva da sua experiência mística: "Aconteceu que...de repente, experimentei um sentimento da presença de Deus, que não havia como duvidar de que estivesse dentro de mim ou de que eu estivesse toda absorvida n'Ele" (Vida 10, 1). Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita: em 1562, funda, em Ávila, com o apoio do bispo da cidade, Dom Álvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e logo depois recebe também a aprovação do superior geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes, continuou a fundação de novos Carmelos, um total de dezessete. Foi fundamental seu encontro com São João da Cruz, com quem, em 1568, constituiu, em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento das Carmelitas Descalças. Em 1580, recebe de Roma a ereção a Província Autônoma para seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem Religiosa dos Carmelitas Descalços. Teresa termina sua vida terrena justamente enquanto está se ocupando com a fundação.

Em 1582, de fato, tendo criado o Carmelo de Burgos e enquanto fazia a viagem de volta a Ávila, ela morreu, na noite de 15 de outubro, em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas frases: "No final, morro como filha da Igreja" e "Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos". Uma existência consumada dentro da Espanha, mas empenhada por toda a Igreja. Beatificada pelo Papa Paulo V, em 1614, e canonizada por Gregório XV, em 1622, foi proclamada "Doutora da Igreja" pelo Servo de Deus Paulo VI, em 1970. Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros (cf. Prefácio do "Caminho de Perfeição"), ou seja, a partir da experiência. Teresa consegue tecer relações de amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, é alimentada com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho. Entre suas principais obras, deve ser lembrada, acima de tudo, sua autobiografia, intitulada "Livro da Vida", que ela chama de "Livro das Misericórdias do Senhor". Escrito no Carmelo de Ávila, em 1565, conta o percurso biográfico e espiritual, por escrito, como diz a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do "Mestre dos espirituais", São João de Ávila. O objetivo é manifestar a presença e a ação de um Deus misericordioso em sua vida: Para isso, a obra muitas vezes inclui o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura fascinante, porque a santa não apenas narra, mas mostra reviver a profunda experiência do seu amor com Deus. Em 1566, Teresa escreveu o "Caminho da perfeição", chamado por ela de "Admoestações e conselhos" que dava às suas religiosas. As destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José, em Ávila. Teresa lhes propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais importantes, destaca-se o comentário sobre o Pai Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o "Castelo Interior", escrito em 1577, em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a ação do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete "moradas", como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce em uma borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa se inspira na Sagrada Escritura, especialmente no "Cântico dos Cânticos", para o símbolo final dos "dois esposos", que permite descrever, na sétima "morada", o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua atividade fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o "Livro das fundações", escrito entre 1573 e 1582, no qual fala da vida do nascente grupo religioso. Como na autobiografia, a história é dedicada principalmente a evidenciar a ação de Deus na fundação dos novos mosteiros.

Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e complexa espiritualidade teresiana. Podemos citar alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base da vida cristã e humana: em particular, o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer das virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela se sente em consonância sobretudo com a esposa do "Cântico dos Cânticos", com o apóstolo Paulo, além de com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico.

A santa enfatiza, depois, quão essencial é a oração: rezar significa "tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama" (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás Aquino dá da caridade teologal, como amicitia quaedam hominis ad Deum, uma espécie de amizade entre o homem e Deus, quem primeiro ofereceu sua amizade ao homem (Summa Theologiae II-ΙI, 23, 1). A iniciativa vem de Deus. A oração é vida e se desenvolve gradualmente, em sintonia com o crescimento da vida cristã: começa com a oração vocal, passa pela interiorização, através da meditação e do recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e com a Santíssima Trindade. Obviamente, este não é um desenvolvimento no qual subir degraus significa abandonar o tipo de oração anterior, mas um gradual aprofundamento da relação com Deus, que envolve toda a vida. Mais que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira "mistagogia": ela ensina o leitor de suas obras a rezar, rezando ela mesma com ele; frequentemente, de fato, interrompe o relato ou a exposição para fazer uma oração.

Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação. Daí a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, para a vida de cada crente e como coração da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: ela manifesta um vivo sensus Ecclesiae frente a episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem Carmelita com a intenção de servir e defender melhor a "Santa Igreja Católica Romana" e está disposta a dar sua vida por ela (cf. Vida 33, 5).

Um último aspecto fundamental da doutrina de Teresa que eu gostaria de sublinhar é a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma ideia muito clara da "plenitude" de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do "Castelo Interior", na última "morada", Teresa descreve a plenitude, realizada na inabitação da Trindade, na união com Cristo mediante o mistério da sua humanidade.
Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe em nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente.

Que o exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficazmente laboriosa, também nos encoraje a dedicar a cada dia o tempo adequado à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho de busca de Deus, para vê-lo, para encontrar a sua amizade e, por conseguinte, a vida verdadeira; porque muitos de nós deveríamos dizer: "Eu não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida". Porque este tempo de oração não é um tempo perdido, é um tempo no qual se abre o caminho da vida; abre-se o caminho para aprender de Deus um amor ardente a Ele e à sua Igreja; e uma caridade concreta com nossos irmãos. Obrigado

Fonte: Zenit